O coração é o pendulo universal dos rhythmos. O movimento isochrono do musculo é como o aferidor natural das vibrações harmonicas, nervosas, luminosas, sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões do mundo. Ha estados d'alma que correspondem á côr azul, ou ás notas graves da musica; ha sons brilhantes como a luz vermelha, que se harmonisam no sentimento com a mais vivida animação.

A representação dos sentimentos effectua-se de accôrdo com estas repercussões.

O estudo da linguagem demonstra.

A vogal, symbolo graphico da interjeição primitiva, nascida espontaneamente e instinctivamente do sentimento, sujeita-se á variedade chromatica do timbre como os sons dos instrumentos de musica. Gradua-se em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo uma variedade infinita de sons intermediarios, que o sentimento da eloquencia suggere aos labios, que se não registram, mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver á expressão, sensivelmente energica, emancipada do preceito pedagogico, de improviso, quasi inventada pelo momento.

Ha ainda na linguagem o rhythmo de cada expressão. Quando o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocabulos, como nos diccionarios. É a emissão de um som prolongado, a crepitar de consoantes, alteiando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.

O que move o ouvinte é uma impressão de conjuncto. O sentimento de uma phrase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.

O timbre da vogal, o rhythmo da phrase dão alma á elocução. O timbre é o colorido, o rhythmo é a linha e o contorno. A lei da eloquencia domina na musica, colorido e linha, seriação de notas e andamentos; domina na esculptural, na architectura, na pintura: ainda a linha e o colorido.

Na sua qualidade de representação primaria do sentimento, depois do facto do amor, a eloquencia é a mais elevada das artes. Dahi a supremacia das artes litterarias,—eloquencia escripta.

A eloquencia foi a principio livre, fiel ao rhythmo do sentimento; influenciada pela musica monotona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monotono como a musica. Aproveitada como recurso mnemonico, libertou-se da musica, guardando, porém, a fórma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da syllaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembour feito milagre de perfeição.

A musica seguiu á parte a sua evolução.