Na arte da eloquencia da actualidade accentuasse uma reacção poderosa contra o metro classico; a critica espera que dentro de alguns annos o metro convencional e postiço terá desapparecido das officinas da litteratura. O sentimento encarna-se na eloquencia, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estylo derribou o verso. As estrophes medem-se pelos folegos do espirito, não com o pollegar da grammatica.

Hoje, que não ha deuses nem estatuas, que não ha templos nem architectura, que não há dies iræ nem Miguel-Angelo; hoje que a mnemonica é inutil, o estylo triumpha, e triumpha pela fórma primitiva, pela sinceridade vehemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura ás quatro difficuldades de um soneto.

Qual a missão da arte? Originaria da propensão erotica fóra do amor, a arte é inutil,—inutil como o esplendor corado das petalas sobre a fecundidade do ovario. Qual a missão das petalas córadas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma consequencia e não um preparativo. Nasce do enthusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o attesta. Agrada sempre, porque o enthusiasmo é contagioso como o incendio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.

E, depois, reclamar titulos de utilidade ás divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a propria perpetuidade da especie?!

Além de inutil, a arte é immoral. A moral é o systema artistico da harmonia transplantado para as relações da collectividade. Arte sui generis. Se é possivel efficazmente o regimen social das symetrias da justiça e da fraternidade, o futuro ha de provar. Em todo caso, é arte differente e as artes não se combinam senão em productos falsos, de convenção.

Poema intencionalmente moral é o mesmo que estatua polychroma, ou pintura em relevo. Apenas uma cousa possivel, nada mais; ha tambem quem faça flôres, com azas de barata e pernas.

A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o individuo sem attender á existencia de outro individuo. Póde ser obscena na opinião da moralidade: Leda; póde ser cruel: Roma em chammas, que espectaculo!

Basta que seja artistica.

Cruel, obscena, egoista, immoral, indomita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana—acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da sciencia que se corrige; embriaga como a orgia e como o extase.

E desdenha dos seculos ephemeros.