Pelo sinete da posta dava-se tudo. Não havia premios de licção que valessem o mais vulgar d'aquelles coupons servidos. Sobre este preço, permutavam-se os direitos do pão, da manteiga ao almoço, da sobremesa, as delicias secretas da nicotina, o proprio decoro pessoal em si.

A raiva dos colleccionadores, caprichando em exhibir cada qual o album mais completo, mais rico, transmittia-se a outros, simples agentes de especulação; d'estes ainda a outros com a seducção do interesse. No collegio todo, só Rebello talvez e o Ribas, primeiro fundeado no porto da misanthropia senil que o distanciava do mundo tempestuoso, o outro a fazer perpetuamente de anjo feio aos pés de Nossa Senhora, escapavam á mania geral do sello, melhor, á geral necessidade de premunir-se com valor corrente para as emergencias.

No commercio do sello é que fervia a agitação de emporio, contractos de cobiça, de agiotagem, de esperteza, de fraude. Accumulavam-se valores, circulavam, fructificavam; conspiravam os syndicatos, arfava o fluxo, o refluxo das altas e das depreciações. Os inexpertos arruinavam-se, e havia banqueiros atilados, espapando banhas de prosperidade.

Falava-se, com a reserva tartamuda dos caudatarios do milhão, de fortunas imponderaveis... Certo felizardo que possuia aquelles immensos exemplares da primeira posta na Inglaterra, os dous rarissimos, ambos! o azul e o branco, de 1840, com a estampa nitida de Mulrady: a Gran-Bretanha braços abertos sobre as colonias, sobre o mundo; á direita, a America, a propaganda civilisadora, a conquista da savanna; á esquerda, o dominio das Indias, coolies sob fardos, dorsos de elephantes subjugados; ao fundo, para o horizonte, navios, o trenó canadiano que foge á disparada das rennas; no alto, como as vozes aladas da fama, os mensageiros da metropole.

Joias d'este preço immobilisavam-se nas collecções, inalienaveis por natureza como certos diamantes. Nem por isso era menos ardente a mercancia na massa febril da pequena circulação; da quantidade infinita dos outros sellos, rectangulares, octogonaes, redondos, ellipsoidaes, alongados verticalmente, transversalmente, quadrados, lisos, denteados, antiquissimos ou recentes, inglezes, suecos, da Noruega, dinamarquezes, de sceptro e espada, sumptuosos Hannover, como retalhos de tapeçaria, cabeças de aguia de Lubeck, torres de Hamburgo, aguia branca da Prussia, aguia em relevo da moderna Allemanha, austriacos, suissos de cruz branca, da França, imperiaes e republicanos, de toda a Europa, de todos os continentes, com a estampa de um pombo, de navios, de um braço armado; gregos com a effigie de Mercurio, o deus unico que ficou de Homero, sobrevivo do Olympo depois de Pan; sellos da China com um dragão esgalhando garras; do Cabo, triangulares; da republica de Orange com uma larangeira e tres trompas; do Egypto com a esphinge e as pyramides; da Persia de Nasser-ed-Din com um pennacho; do Japão, bordados, rendilhados como pannos de biombo e de ventarolas; da Australia, com um cysne; do reino de Hawaii, do rei Kamehameha III; da Terra Nova com uma phoca em campo da neve; dos Estados-Unidos; de todos os presidentes da republica de S. Salvador com uma aureola de estrellas sobre um vulcão; do Brasil, desde os enormes mal feitos de 1843; do Perú com um casal de lamas; todas as côres, todos os sinetes com que os estados tarifam as correspondencias sentimentaes ou mercantis explorando indistinctamente um desconto minimo nas especulações gigantescas e o imposto de sangue sobre as saudades dos emigrados da fome.

A sala geral do estudo, comprida, com as quatro galerias de carteiras e a parede opposta de estantes e a tribuna do inspector, era um microcosmo de actividade subterranea. Estudo era pretexto e apparencia, as encadernações capeavam mais a esperteza do que os proprios volumes.

A certas horas reunia-se alli o collegio inteiro, desde os elementos de primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem de habilitações; o abc diante da porta de entrada, á direita; á extrema esquerda, os philosophos, cogitadores do Barbe, os latinistas abalisados, os admiraveis estudantes do allemão e do grego. Baralhavam-se as tres classes de idades; podia estar um marmanjo empacado á direita na carteira dos analphabetos, e podia estar um bêbê prodigio a desmammar-se na philosophia da esquerda. O acaso da collocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da affeição do Alves desterrar-me uma legua. Dependia tudo do adiantamento.

Como compensação d'estas desvantagens havia os telegraphos e a correspondencia de mão em mão. Os fios telegraphicos eram da melhor linha de Alexandre 80, subtilissimos e fortes, accommodados sob a taboa das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se. Dous amigos interessados em communicar-se estabeleciam o apparelho; a cada extremidade, um alphabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradavel de citharas encordoadas tantas, que ás vezes emmaranhava-se o serviço e desafinava a cithara dos recadinhos em harpa de carcamano.

Havia o genio inventivo no Atheneu, esperanças de riqueza, por alguma descoborta milagrosa que o acaso deparasse á maneira do pomo de Newton. Occorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilegio para explorar ouro nos dentes chumbados dos cadaveres, uma mina! Foi assim a invenção malfadada do telegrapho-martellinho. Tantas pancadinhas, tal letra; tantas mais, tantas menos, taes outras. Os inventores achavam no systema dos signaes escriptos a desvantagem de não servir á noite. O elemento base d'esta refórma era uma confiança absoluta na surdez dos inspectores; aventuroso fundamento, como se provou.

As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais proximos sorriam disfarçando. Mas o martellinho continuou a funccionar e ganhou coragem. No silencio da sala, gottejavam as pancadas, miudas, como o debicar de um pintainho no soalho.