No alto da tribuna, o Sylvino coçou a orelha e ficou attento; começava a implicar com aquillo. Silencio... silencio, e as pancadinhas de vez em quando.

Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um abutre, e com a finura do officio foi cair justo sobre o melhor de um despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a rêde consideravel dos outros telegraphos. Foi tudo raso. Brutal como a furia, implacavel como a guerra—oh Havas!—o Sylvino não nos deixou um fio, um só fio ao novello das correspondencias! De carteira em carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o vandalo, como se não fosse o fio telegraphico listrando os céus a pauta larga dos hymnos do progresso e a nossa imitação modesta uma homenagem ao seculo.

A violencia não fez mais que augmentar o trafego dos bilhetinhos e suspender temporariamente a telegraphia.

De mão em mão como as epistolas, corriam os periodicos manuscriptos e os romances prohibidos. Os periodicos levavam pelos bancos a troça mordaz, aos collegas, aos professores, aos bedeis; mesmo a pilheria blasphema contra Aristarcho, uma temeridade. Os romances, enredados de atribulações febricitantes, attrahindo no descriptivo, chocantes no desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não ha mais compendios, as luctas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões, o exito da diplomacia entre duquezas, a festejada bravura dos duellos, o pundonor de espada á cinta; ou então o drama das paixões asperas, tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um scenario sujo de bodega, entre vomitos de máu vinho e palavradas de barregã sem preço.

Com a proximidade das férias de anno, tudo desapparecia. O aborrecimento imperava.

A impaciencia da expectativa de livramento fazia intoleravel a reclusão dos ultimos dias.

Organisavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da aula de desenho, as aulas primarias estavam a ponto de entrar em exames, dos particulares semestraes, em que o director sondava o aproveitamento. Estes cuidados não podiam combater a inercia expectante dos animos.

No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os cotovellos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e abstrahiam-se com o olhar immovel, idiotismo de espera, como se tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por traz da casa, no quintal do director, ouvia-se cantando Angela, cantilenas hespanholas, sinuosas de molleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistincto, como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com uma vibração de fervura.

Nas horas longuissimas do recreio, os rapazes passeavam calados, destruindo a communhão usual dos brincos, como se temessem estragar mais alegria naquelle captiveiro, certos de melhor emprego breve. Pelas paredes a carvão, pelas taboas negras a traços brancos, arranhada na caliça, escripta a lapis ou a tinta, por todos os cantos via-se esta proclamação: Viva ás férias! determinando a ansiedade geral, como um pedido, uma intimativa ao tempo que fosse menos tardo, oppondo, cruel, a resistencia impalpavel, invencivel dos minutos, dos segundos, á chegada festiva da boa data.

Bento Alves, depois de assegurar que unicamente por mim se havia sujeitado á humilhação que soffrera, andava propositalmente arredio.