Eu, solitario, ia e vinha como os outros, percorrendo o pateo, marcando a bocejos os prazos alternados de impaciencia e resignação, vendo pairar por cima do recreio um papagaio que soltavam meninos da rua para as bandas do Atheneu. Invejava-lhe a sorte, ao papagaio cabeceando alegre, ondeando a balouçar, estatelando-se no vento, passaro caprichoso, dominando vermelho o vasto rectangulo azul que as paredes cortavam no firmamento, solitario, solitario como eu, captivo tambem—mas ao alto e lá fóra.
Relaxava-se o horario; professores faltavam; era menos rude a inspecção. Os alumnos iam por toda parte á vontade. Faziam roda de palestra nos dormitorios, pilando enfastiadamente os mais duros assumptos, murmurações esmoidas, escabrosidades pulverisadas, trituradas malicias, algumas vezes malicias ingenuas se é possivel, caracterisando-se no conciliabulo o azedume tagarella do cançaço podre de um anno, conforme a psychologia de cada salão.
Os dormitorios appellidavam-se poeticamente, segundo a decoração das paredes: salão perola, o das crianças, policiado por uma velha, mirrada e má, que erigira o beliscão em preceito unico disciplinar, olhos minimos, chispando, bocca sumida entre o nariz e o queixo, garganta escarlate, Uma população, de verrugas, cabeça pennugenta de gypaeto sobre um corpo de bruxa; salão azul, amarello, verde, salão floresta, dos ramos do papel, aos quaes se recolhia a classe innumeravel dos médios. O salão dos grandes, independente do edificio, sobre o estudo geral, conhecia-se pela denominação amena de chalet. O chalet fazia vida em separado e mysteriosa.
O policiamento dos dormitorios competia aos diversos inspectores, convenientemente distribuidos.
Na época attenuavam-se os zelos da policia. O proprio gypaeto do perola batia as azas para a folia, uma innocente folia de noventa annos.
A palestra corria desassombrada.
Deitavam-se uns a uma cama, outros cercavam agrupados nas camas proximas e atacavam os assumptos.
No salão dos médios:
«D. Emma... D. Emma... não se murmura á tôa... Reparem na maneira de falar do Chrysostomo... Tem motivo, um rapagão... Palavra que os apanhei sósinhos, juntinhos, conversando, á distancia de um beijo...
—O melhor é que o Chrysostomo não vae para a rua... Que diabo, nem tanto vale o grego, que se pague a beijocas descontadas pela mulher.... Tenho para mim que o negocio ainda acaba mal e porcamente, kakós kai ruparós com uma estralada...