«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...»
Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.
Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.
Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois. Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela refracção nebulosa do boato.
Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu; repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra, metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.
Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças do motim.
Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do refeitorio. Na qualidade de presos politicos, victimas de generosa sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando, outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar... Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim, sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a escripta... Em summa... mocidade...»
Acabavam de accender a illuminação do Atheneu.