«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme! Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão... Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como podia eu suspeitar...»

Emquanto o director falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta lata vasia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha, espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarcho mirava-se nos luminosos documentos da sua inteireza. «Legitimo cascão! legitimo cascão, meus senhores!» garantia, tamborilando com os nós dos dedos numa tampa.

Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão subia, em desordem, scintillando reflexos amarrotados do gaz. Aristarcho avultava sobre as latas, como o principio salvo da autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras azeitadas de ternura, e todo resentimento cedia, e nós saudavamos o director, grande alli, como sempre, sobre o chammejamento do Flandres.

[IX]

A amnistia dos revolucionarios aproveitou por extensão aos execrandos réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarcho despediu-os do gabinete com a penitencia de algumas dezenas de paginas de escripta e reclusão por tres dias numa sala. Desprestigiava-se a lei, salvavam-se, porém, muitas cousas, entre as quaes o credito do estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escandalo de um grande numero de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa cafúa, impossivel, que lá estava o Franco, por exigencia expressa do Sylvino, como causador primeiro das inqualificaveis perturbações da ordem no Atheneu.

Esta resolução agradou-me summamente. Pena seria, em verdade, que perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluido na historia sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.

Adquirira-o com a transição para as aulas secundarias, onde o encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, comprehendemo-nos, mutuamente sympathicos, como se um proposito secreto de cousa necessaria tivesse guiado o acaso da collocação.

Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificancia quotidiana da vida escolar em que a gente se aborrece, é favoravel ao desenvolvimento de inclinações mais sérias que as de simples conveniencia menineira. O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos vicios gera-se tambem o vicio de sentir.

A convivencia do Sanches fôra apenas como o affeiçoamento agglutinante de um sinapismo, intoleravel e collado, especie de escravidão preguiçosa da inexperiencia e do temor; a amizade de Bento Alvos fôra verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito á força, commodidade da sujeição voluntaria, vaidade feminina de dominar pela fraqueza, todos os elementos de uma fórma passiva de affecto, em que o dispendio de energia é nullo, e o sentimento vive de descanço e de somno. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a sympathia não se argumenta. Faziamos os themas de collaboração; permutavamos significados, ninguem ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e mostrar. Queimava-me o ardor inexplicavel do desinteresse. Egbert merecia-me ternuras de irmão mais velho.

Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os cabellos castanhos entremeados de louro, uma alteração exotica na pronuncia, olhos azues de estrias cinzentas, obliquos, palpebras negligentes, quasi a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de conversa, em desenho gracioso e largo.