Vizinhos ao dormitorio, eu, deitado, esperava que elle dormisse para vêl-o dormir e acordava mais cedo para vêl-o acordar. Tudo que nos pertencia, era commum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, déstro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até á côr da pelle e á correcção das fórmas. Nadava como as toninhas. A agua azul fugia-lhe diante em marulho, ou subia-lhe aos hombros banhando de um lustre de marfim polido a brancura do corpo. Dizia as licções com calma, difficilmente ás vezes, embaraçado por aspirações anciosas de asphyxia. Eu mais o prezava nos accessos doentios da angustia. Sonhava que elle tinha morrido, que deixara bruscamente o Atheneu; o sonho despertava-me em susto, e eu, com allivio, avistava-o tranquillo, na cama proxima, uma das mãos sob a face, compassando a respiração ciciante. No recreio, eramos inseparaveis, complementares como duas condições reciprocas de existencia. Eu lamentava que uma occorrencia terrivel não viesse de qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a coragem do sacrificio, trocar-me por elle no perigo, perder-me por uma pessoa de quem nada absolutamente desejava. Vinham-me reminiscencias dos exemplos historicos de amizade; a comparação pagava bem.
No campo dos exercicios, á tarde, passeavamos juntos, voltas sem fim, em palestra sem assumpto, por phrases soltas, estações de borboleta sobre as doçuras de um bem estar mutuo, inexprimivel. Falavamos baixo, bondosamente, como temendo espantar com a intonação mais alta, mais aspera, o favor de um genio benigno que estendia sobre nós a amplidão invisivel das azas. Amor unus erat.
Entravamos pelo gramal. Como ia longe o borborinho de alegria vulgar dos companheiros! Nós dous sós! Sentavamo-nos á relva. Eu descançando a cabeça aos joelhos d'elle, ou elle aos meus. Calados, arrancavamos espiguilhas á grama. O prado era immenso, os extremos escapavam já na primeira solução de crepusculo. Olhavamos para cima, para o céu. Que céus de transparencia e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se ainda, em cauda de ouro, uma lembrança de sol. A cupola funda descortinava-se para as montanhas, diluição vasta, tenuissima de arco-iris. Brandos reflexos de chamma; depois, o bello azul de panno, depois a degeneração dos matizes para a melancolia nocturna, prenunciada pela ultima zona de roxo doloroso. Quem nos dera ser aquellas aves, duas, que avistavamos na altura, amigas, declinando o vôo para o occaso, destino feliz da luz, em pleno dia ainda, quando na terra iam por tudo as sombras!
Outras vezes, subiamos ao duplo trapezio. Embalavamo-nos primeiro brando, affrontando a caricia rapida do ar. Pouco a pouco augmentava o balanço e arriscavamos loucuras de arremesso, assustando o Atheneu, levados em vertigem, distendidos os braços, pés para frente, cabeça para baixo, cabellos desfeitos, ebrios de perigo, ditosos se as cordas rompessem e acabassemos os dois, alli, como uma só vida, no mesmo arranco.
Liamos muito em companhia. Paginas que não terminavam, de leituras delicadas, fecundas em scisma: Robinson Crusoé, a solidão e a industria humana; Paulo e Virginia, a solidão e o sentimento. Construia-mos risonhas hypotheses: que faria um de nós, vendo-se nos apuros de uma ilha deserta?
—Eu, por mim, iniciava logo uma furiosa propaganda a favor da immigração e ia clamar ás praias, até que me ouvisse o mundo.
—Eu faria cousa melhor: decretava preventivamente o casamento obrigatorio e punha-me a esperar pelo tempo.
A pastoral de Bernardin de Saint-Pierre foi principalmente o nosso enlevo. Parecia-nos ter o poema no coração. A bahia do Tumulo, de aguas profundas e sombrias, festejada apenas algumas horas pelo sol a prumo, em suave tristeza sempre; ao longe, por uma bocaina, a fachada, á vista, branca, da igreja rustica de Pamplemousses.