Ideavamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideavamos bem as scenas que liamos da singela narrativa, almas que se encontram, dous coqueiros esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas franjadas, ao calor da felicidade e do tropico. Comprehendiamos os pequeninos amantes de um anno, confundidos no berço, no somno, na innocencia.

Reviviamos o idyllio todo, instinctivo e puro. «Virginie, elle sera heureuse!...» Animavamo-nos da animação d'aquellas correrias de crianças na liberdade agreste, gozavamos o sentido d'aquella topographia de denominações originaes—Descoberta da amizade, Lagrimas enxugadas, ou de allusões á patria distante. Ouviamos palmear a revoada dos passaros, disputando ao redor de Virginia, a ração de migalhas. Percebiamos sem raciocinios a philosophia sensual da mimosa entrevista.

«Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux. Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi... Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon sein et je serai délassé.—Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un arbre à l'autre...»

Confrangia-nos, emfim, ao voltar das paginas, a difficuldade cruel das objecções de fortuna e de classe, o divorcio das almas irmãs, quando os coqueiros ficavam juntos. E a imminencia constrictora do austro, da catastrophe, a lua cruenta de presagios sobre um céu de ferro...

E guardavamos do livro, cantico luminoso de amor sobre a surdina escura dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, mixto de pezar, de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo maldito, onde o café floria e o niveo algodão e o verde claro dos milhos de uma rega de sangue, altear a imagem phantastica da bondade. Virginia coroada; como o capricho omnipotente do sol, formando em gloria os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e doura.

Com o Egbert experimentei-me ás escondidas no verso. Esboçámos em collaboração um romance, episodios medievaes, excessivamente tragicos, cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notavel era um combate devidamente organisado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal maneira a invenção de Schwartz, que ficavamos para todo o sempre, em litteratura, a salvo da increpação de não descobrir a polvora.

Quando ouvi-lhe o nome, á chamada, dos compromettidos no processo, soffri como a surpreza de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de compartir com elle a vergonha.

Qual a especie de cumplicidade que se attribuia? Não quiz saber; fosse o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que soffresse, muito culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E fazia-me estremecer a idéa de que iam maltratar creatura tão mansa, tão complacente, tão amavel, feita de sensibilidade e brandura, contra quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os defeitos, com todas as maculas, na facilidade de perdão das cegueiras sentimentaes, estranhezas da preferencia, que envolve tudo, no ser querido, a phrase limpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da carne.

Quando nos tornámos a vêr, nenhum teve para o outro a minima palavra; ficámos a um banco, lado a lado, em expansivo silencio. E nunca, depois, nem por allusão distante, nos referimos ao caso. Coincidencia instinctiva de um respeito reciproco, odio talvez commum de uma recordação ominosa.

Desde o mez de julho do anno anterior, cursava os estudos elementares das linguas, alegrando-me a acquisição do vocabulo estrangeiro, commercio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a civilisação, como se bebesse a realidade do movimento humano nos paizes remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditavamos como se acredita em romances.