Seguiu-se a massada dos interminaveis themas.
Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenisava o trabalho. As paginas sorriam de litteratura, com o sorriso conhecido dos objectos familiares.
Os professores eram bons e moderados. O do francez, Mr. Delille, nome de poeta applicado a um urso, honrado urso, inoffensivo e benevolo; saudoso do terceiro imperio, cujo desastre o deportava para a vida de aventuras além mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabello denso, luxuriante, ruivo queimado no logar da bocca, mais longe preto, atravez do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de cachaça e regras de Halbout. O professor de inglez, Dr. Velho Junior, nome de contradicção ainda, o melhor dos homens: zeloso, explicador detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a occasião, mas que excellente occasião de se estimar e querer bem!
A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
O professor Venancio leccionava tambem inglez; escapei-lhe ás garras, felizmente: uma fera! chatinho sob o director, terrivel sobre os discipulos; a um d'elles arremessou-o contra um registro do gaz, quebrando-lhe os dentes. Manlio, além das primeiras letras, regia a cadeira especial do portuguez.
Graças ao estudo do outro anno, alcancei soffrivelmente o meu attestado de vernaculismo, garantido pela competencia official; graças tambem ás tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre frei Ambrosio, respeitavel, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a ar tinha com a intonação ôcca e funda das missas cantadas, consumidor de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a Paulo Cordeiro o magnifico idioma do qui, quæ, quod, produzir-me espirros uma simples reminiscencia de Sallustio.
Era costume no Atheneu licenciar-se um pouco do regimento da casa a estudante de certa ordem, que estivesse em vespera de exame. Saía-se então para o jardim com os livros e a commodidade do trabalho a bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitavamos, eu e o Egbert, com toda vontade, a regalia consuetudinaria. Antes da data memoravel do francez, muito passeiámos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille, Racine, Molière. O theatro classico dava para grandes effeitos de declamação. Quanta tragedia perdida sobre as folhas seccas! Quanto gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas á viração leviana e passageira!
Um era Augusto, outro Cinna; um Nearcho, outro Poliuto; um Horacio, outro Curiacio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero o Burrho, Philinto e Alceste, Tartufo e Cleantho. O arvoredo era um scenario deveras. Dialogavamos, com toda a força das encarnações dramaticas, a bravura cavalheiresca, o civismo romano, as apprehensões de rei ameaçado, o heroismo da fé, os arrufos da misanthropia, as sinuosidades do hypocrita. Uma estatua de deusa anonyma, de louça esfolada, verde de velhice, constituia o auditorio, auditorio attento fixamente, comedido, sem demasias do applauso nem reprovação, mas constante e infatigavel.
Para o desempenho dos papeis femininos havia difficuldades; cada um queria a parte mais energica do recitativo. Tirava-se a sorte, e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava som cerimonia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento, noivado de Chimène, desespero de Camilla, lucto de Paulina, ambição de Agrippina, soberania de Esther, astucia de Elmira, dubiedade de Celimène. Outro papel custoso de distribuir era o do Burrho, papel honesto, entretanto, e altamente sympathico. Ninguem o queria fazer, o virtuoso conselheiro de Nero.
Melhor que a prerogativa do estudo livre era uma especie de premio, não catalogado nos estatutos, com que Aristarcho gentilmente obsequiava os distinctos. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! á mesma toalha com a princeza Melica, dos olhos grandes.