Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre tieitch em que tanto se erra?...»

Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.

Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.

Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue, involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã. Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.

Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de affectos.

Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.