O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos grandes, o prudente bedel deixava andar.
Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam, soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros, bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.
Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo, sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exactamente a substancia do afamado mysterio do chalet.
A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.
Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do nada haver, ou como entendiam outros nada vêr. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito; cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica obscura do Atheneu redigia-se alli, em termos explicitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do chalet era esta, caracteristica:—Fica revogado o director.
Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.
Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle, novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.
Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingenuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente, beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua, em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.
Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos, morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.
Angela dominava-os a todos; vencia-os.