As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhavamos.

Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos, ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais, emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as leoas, insensivel e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina; acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade; inflammava-se o chalet em conflagrações de enthusiasmo. Se passava algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo sentinella um durante a ausencia do outro.

Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer ás modalidades de expressão—actualmente, virtualmente, que o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha; incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios, conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação, trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis; tambem quem trahisse apanhava.

A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata, era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro fabuloso do Malheiro era a sancção.