Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não escaldassem as horas nocturnas ao chalet. Ah! o passeio livre do jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.
Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.
Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.
Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira, enfermeirazinha cuidadosa.
Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de cousas improvadas!
No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.
Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous páus.
Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça. Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negocio.
Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.