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De repente, saiu da igreja uma donzella,
Vestida a seda azul, numa expansão inteira,
E Leonor estendia o corpo na janella,
Ao ver-lhe no cabêlo a flôr de laranjeira.

E era uma mulher que deixava confusas
Todas as atenções, em muda admiração,
Tinha o cabêlo negro e a côr das andaluzas,
Tinha no olhar do Sonho a magica atracção.

Do seu corpo harmonioso, elastico, flexivel,
Emanava uma essencia etherea, imponderavel,
Como emana, em fragor penetrante, invencivel,
Um perfume subtil d'uma seda impalpavel:
Tinha a ardente magia
—Das sereias gentis da Andaluzia,—
Que têm gestos sublimes,
E meneios risonhos
Tinha a flexibilidade elastica dos vimes
E a estrutura diáfana dos sonhos.
Nos grandes olhos doces,
Lindos como dois céus, negros como dois crimes,
Relampejantes, humidos, quebrados,
Guadalquivires dormentes, socegados,
Vastos como horisontes,
Tinha da Andaluzia a Alhambra, os eirados,
Os famosos jardins embalsamados,
Onde amavam mulheres e murmuravam fontes.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Depois saiu o noivo, e ó Crueldade ignara,
Irradiára a razão nos olhos de Leonor,
E a grande flôr divina, a flôr mimosa e rara
Reconheceu no noivo o seu primeiro amor.

Caminhavam os dois, gloriosos, triunfaes,
Rodeados d'uma aureola etherea, luminosa,
Entre os alegres sons dos sinos festivaes,
Numa expansão d'amor profunda e victoriosa.

Pelo braço um do outro, altivos, orgulhosos,
Iam cheios de gloria e cheios de esplendores,
Inundava-os o sol em beijos luminosos
E as creanças, sorrindo, atiravam-lhes flôres.

E no tragico assombro, a triste doida então,
A pobre bella e Santa, a timida Leonor,
Sentiu despedaçar-se o terno coração
No convulso derruir titânico da Dôr.

No olhar lhe fusilou uma colera santa,
Recup'rára a Razão para perder a Vida,
Saiu-lhe uma blasfemia ardente da garganta,
Cambaleou afinal, como se fosse ferida,
Deu tres ou quatro passos,
Estendeu em convulsões galvânicas os braços,
E abrindo, sufocada, a baixa porta,
Sem um ai nem um beijo,
Veiu cair exanime, já morta,
No meio do cortejo.