E ao deitar-se… sentindo a voz eclesiastica
Do sino do convento, o sino feiticeiro,
Julgou ser a viola, inefavel, fantastica,
Que estivesse a vibrar na torre do mosteiro.

—*—

Foi uma paixão louca, ardente, doentia,
E o nosso triste poeta, a sorrir e a cantar,
A cantar e a sorrir, todas as noites ia
Envolver Leonor num manto de luar.

Quantos beijos d'amor, humidos, vagarosos,
Pondo ás vezes no labio um lenço de Bretagne!
Eram beijos sensuaes, vermelhos, capitosos,
Como o estrepido audaz do vinho de Champagne!

Fundiam-se em abraços, tremulos, nervosos,
Com tepidas caricias,
Mudas contemplações, extasis silenciosos,
Profundos, vagarosos,
Em extranhas sensações de celestiaes delicias.

Depois aconteceu o que com taes assumptos
Costuma acontecer, de Londres a Stambul;
Os nossos dois amores adormeceram juntos
Sob a cup'la do céu profundamente azul.

Fugi das noites calmas, mornas luarisadas,
Em que o encanto nos vence e o espasmo em nós actua!
Loucas de muito amor, fugi ás guitarradas,
Escravas da Paixão, tende medo da Lua!

De manhã, quando o Sol clareava o horizonte
E o rouxinol findava a amena cavatina,
Despediam-se então com um beijo na fronte,
S'tenuados d'amor d'essa noite divina.

Mas Leonor ficava ainda por instantes,
Espalhados ao vento os seus cabêlos finos,
E mergulhava a alma em sonhos delirantes,
Na doce vibração harmonica dos sinos.

—*—