Ouviam-se nascer suspiros maviosos
Das cordas musicaes, ternas, inebriantes,
Brotavam do luar afagos silenciosos,
Dimanavam do céu ondas de diamantes.

E ante taes expressões e cantos peregrinos,
A linda dama então, sem ouvir nem olhar,
Absorvia-se mais no cantico dos sinos,
E deixava a viola, a cantar e a chorar…

—*—

Mas uma vez… A noite era electrica, etherea,
Luminosa, explendente,
Adquirira voz e sonhos a Materia…
O aroma era mais suave… o luar era mais quente…

Sentiam-se sonhar embriagadoramente
Lirios, como D. Juans, rosas, como as Ofélias,
E até o proprio ar tinha uma voz gemente
Ao beijar, soluçante, as rosas e as camelias.

Sob a janella um Poeta altivo e orgulhoso
Acertou de passar, cantando meiga trova…
E então Leonor sentiu o fremito do gozo,
A estranha sensação d'uma volupia nova.

Naquêle ardente olhar tinha ella conhecido
O philtro da Paixão, enervante e sereno…
Quantas de vós, tambem, não tendes já bebido
No vosso negro olhar esse fatal veneno!

O amor, elle que iguala as raças e as nobrezas
E que possue as forças das paixões damninhas
Que faz curvar os réis ao pé das camponezas
E faz deitar plebeus nos leitos das rainhas;

O amor, elle que faz dormir as violetas
Junto aos cravos gentis, junto aos lirios suaves,
Transpusera a cantar suas pupilas pretas,
Como ninhos de sonho onde adormecem aves.

A viola gemia…
E p'la primeira vez
Leonor se pôs a ouvir a languida harmonia,
Em louca embriaguez.