E os seus olhos azues, dois sonhos sideraes,
Eram na bella face alabastrina, as puras
Emanações da luz astral dos Ideaes,
Eram dois mares vaporosos de tonturas.
O sorrir provocava um languido desmaio,
Era o sorriso bom de Glycéra ou de Leda,
Tinha o calor fecundo e são do sol de maio
E a doce suavidade tépida da seda.
Tinha a regia altivez, um porte de rainha
E a graça virginal d'uma criança pura,
E sentia-se o mimo alado da andorinha
Na graça flexuosa e leve da cintura.
E que direi então da voz harmoniosa,
D'essa voz penetrante, angelica e maguada?!
Ouvi-la, era sentir uma pét'la de rosa
A roçar o ouvido, em voz cristalizada.
E tudo era um contraste excentrico, distinto,
Tinha o poder do Inferno e o enlevo dos archanjos,
Olhá-la—era sentir a embriaguez do absintho,
Ouvi-la—era escutar a propria voz dos anjos.
E em frente da janella o mosteiro vetusto
Vibrava de onde em onde os seus toques divinos.
Então vinha á janella, e o delicado busto
Mergulhava na onda electrica dos sinos.
* * * * *
Passava a Mocidade altiva para vê-la,
Da terra a fina flôr lhe vinha confessar
O seu ardente amor, debaixo da janella,
Á luz inebriante e meiga do luar.
A guitarra gemia. As damas hespanholas
Não tinham mais cantar's debaixo do balcão.
Ouvia-se o lamento estranho das violas…
O riso do prazer e o chôro da Paixão.
Serenatas gentis passavam, quasi a medo,
Com a ternura ideal dos fados portuguêses,
E dizia-se até, em voz baixa, em segredo,
Que ali, mortos d'amor, vinham também marquêses.