Tinha uns sinos de bronze, uns sinos clangorosos,
Que em metalicos sons deitavam para os céus
Ora o encanto febril dos beijos voluptuosos,
Ora a amarga afflicção do derradeiro adeus.

E em sua solidão sob'rana, ingente, estoica,
Levantando-se ao céu e dominando o val',
Os sinos tinham sons d'uma doçura heroica,
Com soluços de bronze e risos de cristal.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E mesmo em frente d'elle, do lado d'onde nasce
O Sol, na sua diurna e rapida carreira,
Habitava Leonor, flôr misteriosa e rara,
—Das bellas a primeira.—

P'ra poder descrever o oval da sua face,
O jaspe setinoso e macio da cara,
O brilho d'esse olhar, p'ra poder defini-lo,
Seria necessario o maior genio humano
—A luz que coloriu as Venus de Ticiano,
O pincel que pintou as virgens de Murillo.

Para poder pintar o seu cabêlo farto,
Seria necessaria a arte soberana,
A divina expressão artistica d'el Sarto
E a magia de côr da escola veneziana.

A bôca era vermelha, ardente, sensual,
O beijo desafiando ao minimo trejeito.
Quanta paixão não fez o seu olhar leal!
Quanto amor não bateu, sem resposta, ao seu peito!

Tinha um olhar azul, envolvente, magnetico,
Cheio de embriaguez, de electricas caricias;
Olhá-lo—era ficar para sempre apoplectico,
Absorvido p'ra sempre em dois mares de delicias.

Causava uma magia o seu azul olhar,
Parecia do haschich o sonho voluptuoso.
Era feito da renda ethérea do luar…
Que renda transparente a d'esse olhar formoso!

Deviam ser assim os olhos de Julieta,
Quebrado o doce olhar em morna languidez,
Quando vinha ao balcão falar ao meigo poeta,
Ao classico Romeu do grande poeta inglês.