. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
É raro o amor, são raras as canções
Na epocha presente.
D'antes os cavaleiros medievaes
Que abrigavam paixões no coração
E que iam nos ginetes sensuaes
Combater por uns olhos desleaes
Debaixo d'um balcão,
Cheios de gloria e de fortuna e fama
Batalhavam em duélos singulares
Pela formosa e sonhadora dama
De face de veludo
E tepidos olhares…
Mas como tudo muda eternamente
—E os combates de amor são só no Entrudo,—
Já não é assim, comtudo,
Na epocha presente.
Debaixo da janella, era noite alta
Inda se via o pálido poeta
E desde Londres até Roma e Malta,
Como um suspiro que de cordas salta
Melodiosamente,
Ouvia-se a guitarra, a viola, a flauta;
Hoje… só se ama á luz d'uma ribalta
Na epocha presente.
Iam os cavaleiros valorosos
Defender a Mulher com perigo ingente,
Dar a vida por uns olhos veludosos
Por um riso feiticeiro,
Por uma voz angelica e gemente…
Hoje o Deus da Paixão é o Deus-Dinheiro…
O amor é um banqueiro
Na epocha presente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Se não amam na epocha presente
O Rei nem o Mendigo,
Se tudo é frio, e desolado e doente,
E não palpitam almas docemente
Sob esse terno sentimento antigo,
Ó mulheres lindas de formoso olhar,
Vinde aprender commigo,
Que eu vos ensino a amar!
E estas folhas abri com mão suave,
Lêde esta narração d'um grande amor,
Ó mãos macias como penas d'ave,
Ó bôcas lindas como rubra flôr!
Lêde este simples conto, que vos dá
Muito singelamente,
A historia de uns amores como não ha
Na epocha presente.
Era um vasto mosteiro o d'essa terra linda
Onde vivia a flôr dos beijos sensuaes,
E respirava um ar da Idade Media, ainda,
A imponente altivez das graves cathedraes.