O primeiro descobrimento da Australia, reclamado por alguma nação, é o de um francez chamado Binot Paulmier de Gonneville, natural de Honfleur, que deu á vela d'aquelle porto em junho, 1503, de viagem para os mares do sul. Depois de ter dobrado o cabo da Boa Esperança, foi assaltado d'uma tempestade que o lançou sobre uma terra desconhecida, na qual foi tractado com hospitalidade, e d'onde, depois da demora de seis mezes, voltou á França, trazendo coinsigo o filho do rei d'aquella região. Infelizmente o diario de Gonneville, na sua tornada, cahiu nas mãos dos inglezes e perdeu-se; porém um ecclesiastico, descendente d'um dos naturaes d'esta região austral, que fôra casado com uma parenta de Gonneville, havia colligido das tradições, e papeis avulsos da familia, e egualmente d'uma declaração judicial, feita perante o almirantado francez em data de 19 de junho de 1505, materiaes para a obra que foi impressa em París por Cramoisy em 1663, intitulada Mémoire touchant l'établissement d'une mission chretienne dans la terra Australe; par un ecclesiastique originaire de cette même terre. O auctor, de feito, estava animado do ardente desejo de prégar o Evangelho na terra dos seus antepassados, e consumiu a vida em diligenciar obter dos que tinham a seu cargo as missões estrangeiras o enviarem-no para alli; e demais d'isso, preencher d'alguma sorte, a promessa que fôra feita pelo primitivo navegador francez de que visitaria novamente aquella região. O trato amigavel com os naturaes, descriptos por Gonneville, que falla d'elles como{5} tendo feito alguns progressos na civilisação, é absolutamente incompativel com o caracter desleal e barbara crueldade que vemos attribuida aos naturaes da Australia-Norte por todos os mais recentes viajantes. «Considere-se toda a narração desprevenidamente, diz Burney, e a idea que de prompto e muito naturalmente ha de occorrer é que a India Austral, descoberta por Gonneville, foi Madagascar. Tendo rodeado o Cabo, foi arrojado pelos temporaes para as latitudes pacificas, e tão proximo d'esta terra que para alli foi encaminhado pelo vôo dos pássaros. Outro ponto que merece ser conhecido, a recusa da tripulação de proseguir até á India Oriental, difficilmente póde crer-se que tivesse logar, a estarem tanto ávante para o nascente como a Nova Hollanda.»
Reclamação mais razoavel do que a precedente, ao descobrimento da Australia nos principios do seculo XVI, pode ser produzida pelos portuguezes, fundando-se no testimunho de varios mappas manuscriptos ainda existentes, pois que a tentativa, feita recentemente, de accrescentar a honra d'este descobrimento a Magalhães, na famosa viagem do Victoria ao redor do mundo em 1520, é, como procurei mostrar, de todo o ponto insustentavel. A reclamação d'esta honra para a Hespanha, é defendida nos seguintes termos no Compendio Geographico Estadistico de Portugal y sus posesiones ultramarinas por Aldama Ayala, 8.º Madrid, 1855, p. 482: «Os hollandezes reclamam o descobrimento do continente da Australia no seculo XVII, com quanto haja sido descoberta por Fernando de Magalhães, portuguez, de ordem do imperador Carlos V, no anno de 1520, como se prova com documentos authenticos, taes como o Atlas de Fernando Vaz Dourado, feito em Goa em 1570, n'um dos mappas do qual está traçada a costa da Australia. O dito magnifico Atlas, illuminado com perfeição, conservava-se antigamente na livraria da Cartucha em Evora.»
Similhante reclamação foi tambem feita por um seu distincto conterraneo, embora a viagem fosse emprehendida em serviço da Hespanha, em um almanack publicado em Angra, na ilha Terceira, pela imprensa do governo em 1832, e composto, segundo se suppõe, pelo visconde de Sá da Bandeira, actual ministro da Marinha em Lisboa.
Na investigação d'este assumpto tive por fortuna o auxilio do dr. Martin, de Lisboa, editor do Mariner's Tonga Islands, cujo exame do mappa de Dourado me dá o convencimento de que o tracto descripto no mappa como descoberto por Magalhães, é de feito um memorandum ou nota-marginal carthographica do real descobrimento da Terra do Fogo por Magalhães, e que, em consequencia da sua inexacta collocação{6} no pergaminho, foi ao depois applicada erradamente por Mercator áquella parte do mundo agora conhecida como Australia, e d'ahi a reclamação de que se tracta.
Agora porém passo a uma indicação mais plausivel do descobrimento da Australia pelos portuguezes na primeira parte do seculo XVI, que decorre entre os annos de 1512 e 1542. Esta indicação acha-se por fórma similhante em diversos mappas manuscriptos, todos francezes, onde, immediatamente abaixo de Java, e separado d'aquella ilha sómente por um apertado braço do mar, está traçado, na margem dos differentes mappas, um largo territorio que se vai estreitando para o sul. Este territorio é chamado a grande Java. No maior numero d'estes mappas, o largo territorio continúa sempre ao longo da porção sul do globo, formando a grande terra Austral, em que desde tempos immemoriaes tão largamente se tem acreditado, e juntando-se novamente com o mundo conhecido na Tierra del Fuego. Mas n'um d'estes mappas occorre uma excepção, muito para notar, a esta regra; o traçado da costa dos dois lados, oriental e occidental, da grande Java, termina em pontos que offerecem fundado argumento de que representam os actuaes descobrimentos. Por exemplo, o ponto mais austral em que termina o traçado da costa occidental é o grau 35, latitude real do ponto sudoeste. O traçado da costa oriental não é tão correcto, mas estende-se muito por baixo do ponto mais ao sul da terra de Van Diemen; comtudo pela sua distante posição teria de ser a parte de menos provavel investigação, e, posto que incorrectamente delineado, concorda com o facto geral de que a inclinação sul do traçado oriental da costa é muito maior que o da linha occidental. Com respeito á longitude da grande Java, póde affirmar-se que, apesar de todas as discrepancias que se notam nos mappas, não ha outro territorio que demore dentro das mesmas parallelas e na mesma extensão, entre a costa oriental da Africa e a costa occidental da America; e que a Australia realmente jaz entre os mesmos meridianos que a grande massa de territorio ali traçada. Relativamente ao contorno da costa, basta um mero relancear dos olhos para descobrir a geral similhança no lado occidental, embora no oriental as discrepancias, como era de esperar, sejam mais consideraveis.
Na totalidade das inscripções particulares d'estes mappas occorrem alguns nomes de bahias e costas, que Alexandre Dalrymple, hydrographo do almirantado e companhia das Indias Orientaes, primeiro de todos advirtiu assimilharem-se a nomes dados pelo capitão Cook ás partes da Nova Hollanda, por elle mesmo descobertas. Na memoria concernente{7} a Chagos e ilhas adjacentes, 1786, p. 4, fallando d'este mappa, diz: «A costa oriental da Nova Hollanda, como nós lhe chamamos, está designada com algumas circumstancias curiosas por condizer com o manuscripto do capitão Cook. O que o mappa chama bahia das Angras (Bay of Inlets) chama-se no manuscripto bahia Perdida; bahia das Ilhas (R. de beaucoup d'Isles); o logar onde tocou o Audaz (Endeavour) coste Dangereuse. De sorte que podemos dizer como Salomão, nada ha novo debaixo do sol.»
Esta mal cabida insinuação houve, com prazer me recordo, judiciosa refutação da penna d'um francez, M. Frederico Metz, em um artigo impresso a p. 261, vol. XLVII da Revue ou Décade Philosophique, Litteraire et Politique, Nov. 1805, que mui maliciosamente observa. «Se Cook teve conhecimento dos mappas em questão, e pretendeu appropriar-se dos descobrimentos de outrem, é preciso suppol-o muito pouco atilado por ter conservado a estes descobrimentos os mesmos nomes, que haviam de denunciar o seu plagiato, a todo tempo que se tornassem conhecidas as fontes que tinha consultado. A «costa Perigosa» foi assim chamada, porque, por espaço de quatro horas elle proprio se achou ali em perigo imminente de naufragar. Devemos portanto suppôr que se expôz a si e á sua tripulação a morte quasi certa, a fim de ter plausivel desculpa de applicar um nome similhante ao que a mesma costa havia já recebido do navegador, desconhecido e anonymo, que precedentemente a descobrira. Entretanto nomes taes como «bahia das Ilhas» «costa Perigosa» são muito conhecidos na geographia. Achamos uma «bahia das Ilhas» na Nova Hollanda; e na costa oriental da ilha de Borneo ha uma «costa das Hervagens.»
O bom senso d'este raciocinio, sem fallar da questão de honra com relação a um homem do elevado caracter do capitão Cook, devia parecer decisivo; com tudo esta similhança de nomes, segundo eu proprio estou informado, tem sido notada por pessoas de alta posição que tem muito conhecimento d'esta região, posto que sem nenhuma intenção de affrontar o capitão Cook, como prova da identidade d'aquelle territorio com a Australia. A similhança de «côte des Herbages» com o nome de «Botany Bay» dado a uma parte correspondente da costa pelo capitão Cook, tem merecido particular attenção, com quanto se saiba que esta bahia, chamada originariamente Stingray, e depois Botany Bay, não foi assim chamada por causa da fertilidade do solo, mas sim por causa da variedade das plantas, novas para a sciencia botanica, as quaes foram descobertas em um solo que aliás nada promettia. É claro que os primeiros navegadores deviam assignar uma denominação{8} tal como a «côte des Herbages,» a uma praia digna de reparo pela rica producção da relva ou de outra qualquer vegetação, antes do que pela apreciação d'algum descobrimento botanico[[1]]. Se a similhança dos nomes «rivière de beaucoup d'Isles» e «côte Dangereuse» com os nomes de Cook «bahia das Ilhas» e o logar «onde o Audaz tocou» descriptivos de indisputaveis realidades, fossem apresentados por Dalrymple como prova de grande probabilidade de que o territorio representado no primeiro mappa era a Nova Hollanda, sem pretender arriscar nenhuma insinuação contra o merecimento do seu rival, nós receberiamos esta plausivel observação com deferencia e justo assentimento.
Que a Nova Hollanda era o territorio assim representado, é asserção sustentada com varios argumentos por mais de um dos nossos visinhos francezes. M. Coquebert Montbret, em uma memoria impressa no num. 81 do Bulletin des Sciences de 1804, cita a injuriosa observação de Dalrymple, e tacitamente concorda em ter ella produzido o seu effeito deceptivo no espirito de leitores incautos.
Um atlas, que se acha ao presente na mão de sir Thomas Phillipps, e contém indicações similhantes ás que deixo descriptas, veiu á mão do principe de Talleyrand no principio d'este seculo; e attrahindo a attenção do celebrado geographo M. Barbié du Bocage, d'elle tirou uma larga noticia, que foi lida n'uma sessão publica do Instituto em 3 de julho de 1807. N'esta diz que «devemos chegar á conclusão de que estes atlas foram copiados dos mappas portuguezes, e por conseguinte que o descobrimento da Nova Hollanda pertence aos portuguezes. É esta a opinião» continua elle «de M. M. Dalrymple, Pinkerton, De la Rochelt, e de varios outros; e não creio que possa allegar-se nenhuma boa razão para refutar uma opinião tão bem fundada.» Entretanto M. Barbié du Bocage soltou esta expressão do seu convencimento tentando fixar o periodo do descobrimento, em cuja tentativa cahiu em erros que me propuz refutar, porém a que seria fastidioso aqui alludir.