A prova que subministram estes mappas, de terem tido por base os descobrimentos portugueses, é a seguinte. Todos elles são francezes; e que todos são repetições, com ligeiras variações, de uma unica origem, mostra-se pelo facto de que os defeitos sao os mesmos em todos. As indicações portuguezas occorrem em alguns nomes, taes como «terre ennegade» forma afrancezada de «tierra anegada» isto é «terra{9} coberta d'agua» ou «baixios»; «Graçal» «cabo da Formosa.» Levanta-se por tanto a questão, julgando por taes provas, se foram os francezes ou portuguezes os descobridores? Em resposta offereço a seguinte exposição.
No anno de 1529 João Parmentier de Dieppe fez uma viagem a Sumatra, e durante a viagem morreu. Parmentier era poeta, douto classico, e igualmente navegador e bom hydrographo. Acompanhou-o n'esta viagem seu intimo amigo o poeta Pedro Crignon, que, regressando a França, publicou em 1531 os poemas de Parmentier, com um prologo que contém o seu elogio, no qual diz que Parmentier foi «le premier françois qui a entrepris à estre pilolte pour mener navires à la terre Amérique qu'on dit Brésil, et semblablement le premier françois qui a descouvert les Indes jusqu'à l'Isle de Taprobane, et, si mort ne l'eust pas prévenu, je crois qu'il eust ésté jusques aux Moluques». É de pêso esta auctoridade n'este ponto, porque vem de um homem de distincção, o segundo do navio, e intimo do mesmo Parmentier. Assim pois os francezes não passaram, nos mares do sul, além de Sumatra antes de 1529. A data do mais antigo dos mappas citados não é anterior a 1535, pois que contém o descobrimento de S. Lourenço por Jacques Cartier n'aquelle anno; porém ainda quando não o supponhamos mais antigo que o de Rotz, que tem a data de 1542, se perguntamos de quaes viagens dos francezes nos mares do sul temos conhecimento entre os annos de 1529 e 1542, nem o abbade Raynal, nem nenhum moderno escriptor francez, nem tão pouco os antiquarios que investigaram com maior indagação a historia dos descobrimentos francezes, como, por exemplo M. Léon Guérin, auctor da Histoire Maritime de France, París, 1843, 8.º; e Les Navigateurs Français, París, 1847, 8.º, nenhum apresenta a mais leve pretenção de que os francezes navegassem para aquellas paragens na primeira parte ou no meiado do XVI seculo.
É certo, comtudo, que a França estava n'aquelle tempo muito pobre, e muito implicada em cuidados politicos para entremetter-se em longinquas investigações nauticas. Se assim o tivesse feito, toda a America do norte e o Brasil poderiam agora pertencer-lhe. Todavia sabemos ao mesmo tempo, que os portuguezes tinham anteriormente a 1529 estabelecimentos nas ilhas das Indias orientaes; e a existencia de nomes portuguezes nos territorios de que fallamos, como se acham delineados n'estes mappas francezes, é de si mesma o reconhecimento de terem sido descobertas pelos portuguezes; como sem duvida a opinião dos francezes, com respeito á cobiça e exclusivismo dos portuguezes,{10} não só devia ter tornado os primeiros mais diligentes em reclamarem tudo que lhes fosse possivel em materia de descobrimentos, mas tambem devia ter estorvado a gratuita introducção de nomes portuguezes em regiões tão remotas, se elles proprios as houvessem descoberto. No tomo 3.º da Collecção de Ramusio, na noticia do «Discorso d'un gran capitano di mare francese del luogo di Dieppa, etc.,» que sabemos agora ser a viagem de João Parmentier a Sumatra em 1529, e com toda a probabilidade escripto pelo seu companheiro e elogiador o poeta Pedro Crignon, encontra-se esta expressão: «Io penso che li Portoghesi debbano haver bevuto della polvere del cuore del re Alessandro..... e credo che si persuadino che Iddio non fece il mare nè la terra, se non per loro, e che l'altre nationi non siano degne di navigare, e se fosse nel poter loro di mettere termini e serrar il mare del Capo di Finisterre fin in Hirlanda, gia molto tempo saria che essi ne haveriano serrato il passo.» Mas, demais d'isto, pois que tira d'ahi muita força este argumento, não devemos deixar de ter em conta o ciume dos portuguezes, que vedavam a communicação das informações hydrographicas relativamente aos seus descobrimentos n'aquelles mares. Humboldt affirmou, Histoire de la Geographie du Nouveau Continent, tom. 4.º, p. 70, sobre a auctoridade de cartas de Angelo Trevigiano, secretario de Domenico Pisani, embaixador de Veneza na Hespanha, que os reis de Portugal defenderam, sob pena de morte, a exportação de cartas maritimas que revelassem a derrota a Calecut. Achamos igualmente em Ramusio, Discorso sopra el libro di Odoardo Barbosa, e Sommario delle Indie Orientali, tom. 1.º, p. 287 b, imposta similhante prohibição. Diz elle que estes livros «estiveram occultos por muito tempo, e não se consentiu que fossem publicados por convenientes razões, que não devo aqui manifestar.» Tambem falla da grande difficuldade que elle mesmo tivera de obter uma copia, posto que imperfeita, em Lisboa, «Tanto possono» observa elle «gli interessi del principe.»
Póde formar-se alguma idéa do conhecimento que possuiam os hespanhoes no meiado do seculo XVI ácerca da parte do mundo de que tractamos, pelo seguinte extracto d'uma obra intitulada El Libro de los Costumbres de todas las Gentes del Mundo y de las Indias, traduzida e compilada pelo bacharel Francisco Thamara, Antuerpia, 1556: «A treynta leguas de Java la menor, está el Gatigara a nueve y diez grados de la Equinocial de la otra parte azia el sur. Desde aqui adelante no ay noticia de mas tierras, porque no se ha navegado por esta parte mas adelante, y por tierra no se puede andar por los muchos lagos y grandes y altas montarias que por aqui ay. Y aun dizese que{11} por aqui es el parayso terrenal.» Ainda que isto não foi escripto originariamente em hespanhol, porém traduzido de Johannes Bohemus, não é facil de crêr que fosse apresentado aos hespanhoes, se entre elles houvessem mais exactas informações a este respeito.
Os factos assim reunidos levam-me á conclusão de que a terra descripta como «la Grande Java» nos mappas francezes a que tenho feito referencia, não póde ser senão a Australia; e que foi descoberta antes de 1542, quasi que póde acceitar-se como certeza demonstrada; porém, quanto tempo antes, não é claro. Creio tambem que tenho conseguido fazer sentir a grande probabilidade de terem sido os portuguezes os seus descobridores.
Em um mappa destinado a servir de esclarecimento ás viagens de Drake e Cavendish por Jodocus Hondius, é apresentada a Nova Guiné como uma ilha perfeita, sem uma só palavra que faça nascer duvida ácerca da exactidão do desenho; emquanto que a terra Austral, separada da Nova Guiné apenas por um estreito, tem um perfil notavelmente parecido ao do golpho de Carpentaria. Estas indicações dão a este mappa um interesse especial, principalmente porque se mostra que é anterior á passagem de Torres pelo estreito de Torres, em 1606, pois que tem as armas da rainha Elizabeth, antes que o unicornio da Escocia expulsasse o dragão dos Tudors.
No artigo Terra Australis, na obra de Cornelio Wytfliet, Descriptionis Ptolemaicae Augmentum, Louvain, 1598, encontramos o seguinte passo: «Australis terra omnium aliarum terrarum australissima tenuique discreta freto Novam Guineam orienti objicit, paucis tantum hactenus littoribus cognitam, quod post unam atque alteram navigationem, cursus ille intermissus sit, et nisi coactis impulsisque nautis ventorum turbine rarius eo adnavigetur. Australis terra initium sumit duobus aut tribus gradibus sub aequatore, tantaeque a quibusdam magnitudinis esse perhibetur, ut si quando integrè delecta erit, quintam illam mundi partem fore arbitrentur.» A declaração que fica citada foi impressa, convém recordal-o, antes d'algum descobrimento da Australia de que tenhamos noticia authentica.
Porém quando se examinam estas indicações do descobrimento da Australia no XVI seculo, é natural perguntar quaes explorações haviam sido feitas pelos hespanhoes n'aquella parte do mundo, no decurso do dito seculo? Depois do periodo da viagem de D. Alvaro de Saavedra ás Molucas em 1527, cessamos de encontrar a actividade do espirito de investigação por parte dos hespanhoes nos mares do sul. Embaraçados pela sua situação politica, e pelos apuros do thesouro, o imperador,{12} em 1529, renunciou definitivamente as suas pretenções ás Molucas a troco de uma somma de dinheiro, posto que manteve a sua reclamação ás ilhas descobertas pelos seus vassallos, ao nascente da linha de demarcação limitada agora aos portuguezes. Em 1542 foi mal succedida a tentativa de formar um estabelecimento nas ilhas Philippinas que fez Ruy Lopez de Villalobos; porém tendo-se attribuido o mau resultado á falta de direcção, foi enviada com igual intento nova expedição em 1564 sob o mando de Miguel Lopez de Legaspi, que obteve completo exito, e uma colonia hespanhola foi estabelecida em Zebu. Não é impossivel que este estabelecimento désse occasião ás viagens de descobrimento feitas n'este tempo pelos hespanhoes, das quaes nenhuma noticia foi publicada. Em 1567 Alvaro de Mendanha deu á véla de Calláo para uma viagem de descobrimentos, na qual descobriu as ilhas de Salomão e varias outras. Ha grande divergencia nas differentes relações d'esta viagem. Em 1595 fez segunda viagem ao Perú, na qual descobriu as ilhas Marquezas, e o grupo depois chamado por Carteret ilhas da rainha Carlota. O objecto d'esta expedição era fundar uma colonia nas ilhas de Salomão, que elle descobrira na precedente viagem, mas que pela inexactidão dos seus calculos não foi capaz de encontrar. Tentou estabelecer uma colonia na ilha de Santa Cruz, mas não o conseguiu, e falleceu n'esta ilha. N'esta segunda viagem teve por principal piloto Pedro Fernandez de Quiros, que póde ser considerado como o ultimo dos distinctos marinheiros de Hespanha, e cujo nome reclama especial menção em uma obra que tracta das primeiras indicações da Australia, posto que elle mesmo nunca visse as praias d'aquella grande ilha continental[[2]].
O descobrimento da ilha de Santa Cruz suggeriu ao espirito de Quiros que o grande continente sul estava emfim descoberto, e encontramos em duas memorias por elle dirigidas a D. L. de Velasco, vice-rei do Perú, o primeiro debate circumstanciado ácerca d'esta grande questão geographica, a qual, posto que elle proprio não estava destinado a demonstrar por via d'algum descobrimento actual, não obstante póde dizer-se que, directamente mediante elle mesmo, foi posta no caso de ser resolvida. É certo que, nutrindo estas vagas hesitações com respeito á existencia de um continente sul, se torna difficil fazer distincção entre a Australia propriamente dita e o grande continente descoberto{13} no presente seculo, vinte ou trinta graus ao sul d'aquella vasta ilha. Dalrymple, que, ha perto de dois seculos, advogava com energia a causa sustentada por Quiros, fallando d'este navegador, diz: «O descobrimento do continente sul em qualquer tempo, e por quem quer que tenha de ser effeituado completamente, de justiça é devido a este nome immortal.» Deveria advertir-se, que, de feito ha tres motivos de duvida relativamente ao nome d'aquelle navegador, o que convém notar, porque podem transviar o juizo do leitor superficial da historia da navegação d'aquelle periodo, quanto á sua connexão com o descobrimento da Australia. Em primeiro logar, com quanto geralmente seja reputado hespanhol, é descripto por Nicolau Antonio, auctor da Bibliotheca Hispana, que era hespanhol, e não deixaria de querer, como deve suppôr-se, reclamar um tão distincto navegador para seu concidadão, como «lusitanus, eborensis, ut aiunt lusitani» (portuguez, que os portuguezes affirmam ser natural d'Evora), e o estylo dos seus escriptos justifica a supposição. Em segundo logar, Antonio de Ulloa, no seu Resumen, p. 119, cita uma relação da viagem de Quiros, que se diz dada na Historia de la Religion Serafica, de Diogo de Cordova (obra que eu não tenho tido a boa fortuna de encontrar), onde se menciona o descobrimento de uma larga ilha no vigesimo oitavo grau de latitude sul, a qual latitude fica mais ao sul do que de qualquer modo se sabe terem chegado Quiros ou os seus companheiros. Em terceiro logar, as memorias impressas de Quiros têem o titulo de Terra Australis Incognita, em quanto que a terra Austral sul, descoberta pelo mesmo Quiros, e por elle denominada «del Espiritu Santo» não é senão a «New Hebrides» dos mappas de hoje.
A Quiros e Dalrymple somos de feito devedores indirectamente da primeira designação que dá algum sentido á nomenclatura moderna que se refere á Australia, a saber, em relação ao estreito de Torres. Que Quiros, portuguez, ou hespanhol por nascimento, estava ao serviço de Hespanha, não padece duvida nenhuma. O vice-rei do Perú favoreceu com ardor os seus planos, porém considerou a execução d'elles como fóra dos limites da sua propria alçada. Em consequencia, instou com Quiros para que puzesse a questão na presença do monarcha hespanhol em Madrid, e lhe deu cartas para recommendar a sua pretenção. Se Philippe III foi movido pelos argumentos de Quiros relativamente ao descobrimento do continente do sul, ou antes pelo desejo de explorar a estrada entre a Hespanha e America pelo nascente, com a esperança de descobrir as opulentas ilhas que demoram entre a Nova Guiné e a China, não precisamos deter-nos a disputal-o. É possivel{14} que pesassem ambos estes motivos, porque Quiros foi enviado ao Perú com plenos poderes, dirigidos ao vice-rei, conde de Monterey, para pôr por obra o seu plano, e foi assistido amplamente com dois navios bem armados e uma corveta, com cujas forças deu á vela de Calláo a 21 de dezembro de 1605. Luiz Vaez de Torres commandou o Almirante, ou segundo navio, d'esta expedição. A viagem foi considerada como da maior importancia, e Torquemada, na relação que faz d'ella na Monarchia Indica, diz que os navios eram os mais alterosos e bem armados que se tinham visto n'aquelles mares. O objecto era fazer um estabelecimento na ilha de Santa Cruz, e partir d'ali para procurar a Tierra Austral, ou continente sul.