Agora pode objectar-se com respeito a este mappa, que não sendo senão cópia tirada no começo do presente ou ao fechar do seculo passado, a exposição que dá materia a este escripto pode ter sido inserta fraudulentamente. Porém para que pese uma tal consideração é preciso apresentar um motivo, e o mais razoavel é assignar a honra do primeiro descobrimento authentico a Portugal em vez de o attribuir á Hollanda. Para isto é necessario suppormos que o falsificador foi portuguez. Tenho a responder que, ao passo que tudo que está escripto{20} no mappa é em portuguez, a cópia foi tirada por pessoa que não só não era portugueza, mas demais a mais ignorava o portuguez. Por exemplo, a legenda em questão, breve como é, contém não menos de cinco erros crassos que provam ignorancia da lingua; assim pois as palavras «por Manuel» estão escriptas «por mano el» «Eredia» está escripto «Evedia» «do» está escripto «de» «Ayres» está escripto «Aives» «Saldanha» está escripto «Saldaha» sem o til para indicar a abbreviatura.

Mais ainda: se ha de attribuir-se a supposta falsificação ao intento de reclamar ulteriormente para os portuguezes a honra do primitivo descobrimento, d'onde nasce que nunca esse intento foi posto em execução? Nunca, até hoje, aquelle facto se fez publico, e os mais interessados na antiga gloria da nação portugueza, ignoram o descobrimento que este mappa declara ter sido feito. Em quanto a não se ter tornado este objecto do dominio da historia, póde explicar-se pela comparativa pequena importancia que no tempo seria dada a um tal descobrimento, e tambem pelo facto de que, não estando já então os portuguezes no apogêo da sua prosperidade, não tomaram este objecto em maior conta, repetindo as expedições áquelle territorio, como pouco depois os hollandezes realmente começaram a fazer.

Além d'isto, póde aventurar-se a conjectura de que, sendo o mappa uma cópia, a data do descobrimento pode ter sido transcripta menos cuidadosamente; assim, por exemplo, 1601 podia facilmente estar escripto no original 1610, e haver-se copiado erradamente. Por felicidade a exactidão da data póde ser provada sem hesitação. Declara-se distinctamente que a viagem foi feita de ordem do vice-rei Ayres de Saldanha, o periodo de cujo vice-reinado abrange sómente de 1600 até 1604, e por este modo fecha-se a porta á possibilidade do erro imaginado, pois que termina antes do periodo dos primeiros descobrimentos dos hollandezes.

Ainda mais; póde objectar-se, que é possivel que um territorio indicado tão vaga e incorrectamente não seja a Australia. A resposta é tão indisputavel como a que fixa a data do descobrimento. Immediatamente por baixo da legenda de que se trata, segue-se outra assim concebida: «Terra descuberta pelos Holandeses a que chamarão Enduacht (sic) au Cõcordia» (terra descoberta pelos hollandezes, a que elles chamaram Endracht ou Concordia). Eendraghtsland, como todos sabemos, foi o nome dado a um largo tracto da costa occidental da Australia, descoberto pelo navio hollandez o Eendraght, em 1616.

Todavia, se a legenda de que fallamos não é cópia genuina de{21} um antigo mappa genuino, como conseguiu o moderno falsificador ter conhecimento do nome de um cosmographo não imaginario, que viveu em Goa n'um periodo que se ajusta com o estado dos descobrimentos geographicos representado no mappa, do qual porém nenhuma producção manuscripta ha sido impressa no tempo em que o supposto mappa ficticio foi traçado ou a legenda ficticiamente inserta?

Penso que estes argumentos concluem, e estabelecem a legitimidade da cópia moderna do antigo mappa. Com respeito ao descobridor Manuel Godinho de Eredia (ou antes Heredia, como escrevem Barbosa Machado e Figanière), encontro a seguinte obra de que elle é auctor: Historia do Martyrio de Luiz Monteiro Coutinho, que padeceu por ordem do Rey Achem Raiamancor no anno de 1588, e dedicada ao illustrissimo D. Aleixo de Menezes, arcebispo de Braga; cuja dedicatoria é datada de Goa, em 11 de novembro de 1615; fol. Ms. com varias notas.

Barbosa Machado chama-lhe distincto mathematico; e Figanière um cosmographo residente em Goa. Segue-se, como consequencia natural, que o mappa original foi executado por elle mesmo. A cópia veiu de Madrid, e foi comprada pelo Muséo Britannico, em 1848, ao sr. de Michelena y Roxas. Será materia de interesse descobrir algum dia a existencia do mappa original; mas, se aquella estava na livraria de Madrid, ou em alguma outra parte, deve ser assumpto de futuras investigações.

N'um pequeno volume intitulado Informação da Aurea Chersoneso ou Peninsula e das ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, ordenada por Manuel Godinho de Eredia, cosmographo, copiada de um antigo Ms. e dada á luz por Antonio Lourenço Caminha, em uma reimpressão das Ordenações da India, do Senhor Rei D. Manuel, Lisboa, Imprensa Regia, 1807, 8.º, encontra-se um logar que pode ser traduzido como segue:

«Ilha do Ouro. Em quanto os pescadores de Lamakera, na ilha de Solor[[3]] estavam occupados na pesca, levantou-se um tão grande temporal que se lhes tornou absolutamente impossivel o regressar á praia, e por tanto tiveram de ceder á força da tormenta, que foi tal, que por espaço de cinco dias os deteve fora da ilha do Ouro, a qual jaz no mar na costa fronteira, ou contra-costa de Timor, que propriamente se chama costa do Sul. Quando os pescadores abicaram á terra do Ouro, não tendo comido durante os dias da tormenta, saíram a procurar provisões.{22} Foram tão felizes e bem succedidos, que, em quanto inquiriam o terreno, buscando inhames e batatas, encontraram-se com tão grande quantidade d'ouro, que carregaram o bote a ponto de não poder levar mais. Depois tomando agua e os necessarios bastecimentos para voltarem á terra natal, padeceram outra borrasca, que os arremessou para a ilha do grande Ende[[4]]; alli desembarcaram todo o ouro, o que excitou grande inveja entre os endes. Estes mesmos endes determinaram por tanto, como os pescadores lamacheres, repetir a viagem; e quando estavam promptos para desaferrar, endes e lamacheres, apoderou-se d'elles tão grande temor, que não se atreveram, por causa da sua ignorancia, a atravessar aquelle mar do Ouro.