Todos gostaram muito daquella singeleza Romana, mas Antonio Nebrixa,{52} que foi hum Hespanhol honrado, disse com toda a inteireza: Ainda naõ he taõ mau, que haja quem ensine a ler; e aquelle que sabe, e executa a sua obrigaçaõ faz mais serviço ao Publico do que se pensa lá no mundo: e bem vedes quanto estimamos estes poucos de quem nos prezamos muito de serem nossos companheiros, e a pena he virem para cá taõ poucos deste calibre!
Entaõ abaixaram a cabeça os Professores elogiados, e Crates Mallotes louvou muito o relator, que assim proseguio: Os Professores Regios de ler apenas tem salarios para o aluguel de casas; e por isso ou haõ de ser homens incapazes, ou haõ de procurar o sustento por outra via. Se se dessem os mesmos ordenados, e as mesmas honras aos Professores de ler, que se daõ aos de Rhetorica, haveriam muitos eruditos que servissem ao Estado de boa mente, neste ramo: entaõ se ensinaria a Grammatica da Lingua materna na escola, aprender-se-hia qualquer lingua com muita facilidade, e{53} naõ morreriam de trabalho os Professores de Latim em o ensino de gente bruta.
Tivessem elles dinheiro, disse Dionisio de Syragoça, que honra lhes dei eu, porque naõ me desprezei de ensinar meninos, depois de ter sido o que sabeis. Mas já que tendes fallado tanto na pedantaria dos Professores de ler de quem fui collega, dizei tambem alguma coisa dos de Latim para consolaçaõ da minha tristeza.
Tem havido optimos Professores de Latim, continuou Nebrixa, e ainda hoje os ha; porém para fallar com a sinceridade de defuncto, naõ me posso dispensar de dizer, que saõ muitos mais os idiotas. Depois que se deram Provisões de favor, isto he, sem se fazer rigoroso exame, ou depois que muitos entraram a ensinar sem faculdade alguma do Estado, entaõ tambem começáram apparecer nuvens de falladores, que sendo huns Professores diminutivos, sem a mais leve tinctura nem de Logica, nem de Critica, andam feitos censores dos melhores livros,{54} por onde podiam aprender (a terem os conhecimentos que a lei delles requer) e vaõ surrando o entendimento da mocidade com os cartapacios defumados, que sem offensa de seus autores, deviam ser condemnados a embrulhar adubos.
He forte cegueira, disse Gaspar Sciopio, ver ainda hoje homens mais afferrados á opiniaõ dos livros por onde aprenderam, do que os Pythagoricos a de seu Mestre!
Mas esses pedantes, disse o Barbadinho, neste tempo escuro, em que mui poucos aprendem Latim, he que trazem mais algum estudante.
Esses Mestres, continuou Nebrixa, pela maior parte saõ particulares (reparai, Guliver, que naõ digo, Todos) e como o estudante traz a mezada em o fim do mez, he preciso fazer a boca doce aos pais; murmurar dos estudos Regios, e persuadir-lhes ser coisa menos decente mandar os filhos ás aulas dos pobres.
Pobres de juizo, disse Antonio Pereira todo agastado, pobres de juizo{55} saõ os que accreditam similhantes novelleiros. Como se os estudos do Rei naõ fossem a honra de todos os vassallos? Ou como se fosse desprezo acompanhar com seus irmãos aquelle que tendo melhor fortuna, naõ tem outra natureza?
Ainda se servem, proseguio Nebrixa, de outro estratagema mais sagaz, que he apregoarem, ou por si, ou por seus devotos, que as aulas Regias andam cheias de moços mal procedidos.
Este seculo, disse o Barbadinho, está cheio de corrupçaõ, e como as aulas particulares, trazem alguns estudantes mais que as outras, tambem vos podeis persuadir, que trazem muito peior gente.