Londres 25 de Fevereiro de 1800.{V}

PROLOGO.

QUalquer que seja o estado, ó amicissimos Leitores, em que a sórte tenha collocado o homem, nunca já mais o pode dispensar de Fazer bem aos da sua raça: foi este devêr gravado no coraçaõ humano pelo dedo da propria Natureza; nem taõ pouco o Author Supremo lhe permittio a feia liberdade de derribar os alicerces mais seguros da ordem social. Estes motivos, julgo, obrigáram a meu avô a fazer suas viagens a differentes ilhas, donde vos trouxe bellos, e interessantes documentos, os quaes, a meu ver, muito vos aproveitariam, se bem trabalhasseis pelos entender. Eu pois naõ querendo deixar só em taõ louvavel projecto hum illustre progenitor, que honrou ainda mais a sua naçaõ, que a sua familia, fui, depois de alguns estudos sérios o unico patrimonio, que recebi de meu pai, passear pelo mundo, a fim de{VI} recolher os fructos, que a minha terra naõ houvera produzido. Agitado por isso destas boas intenções, viajei por todas as partes do orbe; e lá virá tempo, se a Parca o quizer, que eu deleite a vossa curiosidade com bocados bem gostosos. Entre tanto desfructai estas bem adubadas lições dos Grammaticos defunctos, que vos trago da ilha dos Mortos, á qual apportei naõ sei como, depois de haver naufragado dois dias antes, junto da Arcadia. Naõ me foge ser este presente bem digno da minha amada patria, e confio, que ella naõ rejeite as provas mais sinceras do meu affectuoso coraçaõ; ainda que por outra parte naõ desconheço mais quereria, que eu a mettesse de posse da dita ilha; mas naõ podendo ser a sua conquista senaõ depois da morte, só lhe dou o que cabe em a minha alçada: isto he, lições mui precisas, que a benignidade de Crates Mallotes, e de outros Grammaticos fallecidos muito me recommendou; e as quaes eu terei sem algum{VII} rebuço, e com a mesma franqueza de vos manifestar; já por ter lido isto expressamente mandado, como vereis, por gente da outra vida, com quem naõ se deve brincar; já por ser contra o meu decóro naõ pizar a feia, e çuja lisonja com os mesmos pés que correram pelas ingenuas provincias da eternidade.{VIII}

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CRATES MALLOTES.

DIALOGO I.

Acha-se Gúliver depois de seu naufragio deitado em huma cama de penas; levanta-se, fica vestido com ellas: he levado ao palacio de Crates Mallotes: falla-se em a decadencia das Letras: estabelece Teive tres causas de pedantaria geral: nomeia Crates para cada huma seu relator, &c.

TInha amanhecido o dia 27 de Dezembro de 1799, passados já quasi 23 annos, que havia sahido dos patrios lares, e para onde vinha navegando: seriam tres da tarde, quando se levantou pelo Sul huma nuvem pardacenta,{10} que em breve espaço vestio o Ceo de negro, e logo o vento entrou a dar horrendos berros, os quaes converteram os mares em elevadissimas montanhas, cujas fraldas eram medonhas cavernas: ferviam os alaridos; mas a fervura pouco durou; porque a tempestade correu veloz, fez em migalhas toda a mastreaçaõ, o mar de Arcadia engolio o casco do navio, e sepultou em suas malvadas entranhas os meus amados companheiros. Eu andei abraçado com hum pedaço de mastro, dois dias, segundo penso, feito boia; no fim dos quaes cheguei quasi defuncto áquella parte da ilha dos Mortos, que os Grammaticos habitam. Naõ sei dizer como ahi apportei; porque só me lembro de resuscitar no meio dos Grammaticos, que já morreram, cuja caridade, e benevolencia vou apregoar para confusaõ dos ingratos de que o mundo está cheio. He pois o caso: mal hia eu abrindo os amortecidos olhos, senaõ quando vejo Sanches todo arregaçado a applicar-me varios remedios, e ninguem dizia nada, eu tambem{11} fiquei callado; porém nada me escapou: porque reparei me haviam deitado em hum leito de negro evano, enterrado em plumas de aves desconhecidas, no meio de hum portico de soberbas columnas, o qual servia de fachada a hum palacio taõ magnifico, que bem conheci naõ ser feito por braço mortal, cujas obras pelos erros, e defeitos, logo se daõ a conhecer.

Assim estava medindo com os meus botões o edificio dos mórtos, quando Sanches observando hum e outro pulso, disse: Desta estás çafo. Eu porém, que naõ estava acostumado a ouvir fallar defunctos, metti a viola no sacco. Mas o Francez Despauterio, como quem quiz mostrar o pique da sua naçaõ contra a Hespanhola, disse com hum rizo Sardonico, muito gosto, Sanches, de vos vêr de Grammatico feito Medico. Já no mundo (tornou o sabio Brocense em hum tom, que me regalou) fui o Medico, que curou as doenças literarias do teu paiz: o meu nome lá anda na boca{12} dos eruditos; o teu na dos pedantes.

Entaõ Despauterio ficou de queixo cahido: todo o congresso bateu as palmas, e carregou de vivas o Principe dos Grammaticos, e eu animado com a galhofa agradeci-lhe muito a caridade com que me tratou: e fiquei desde entaõ senhor de mim de tal feiçaõ, que me parecia, já naõ ser homem de Inglaterra: de maneira que sem ceremonia nenhuma saltei pela cama fóra; mas quanto naõ fiquei maravilhado, quando me vi vestido das mesmas pennas, em que, pouco havia, estive deitado! Fiquei pois com huma beca, como de Desembargador, e naõ cessava de me mirar, assim como fazem os casquilhos no meio das ruas; porém he certo que eu naõ obrava assim por asneira, como elles. Toda a minha admiraçaõ era ver hum vestido feito por si mesmo sem tezoura, nem agulha de alfaiate. Antonio Nebrixa conheceu o meu espanto, e disse: Aqui naõ admittimos homens, que fazem officio de mulher, e subministram ao luxo mundano{13} o ultimo refinamento, ajudando os teares da tua naçaõ a esgotar quanto dinheiro as outras tem. Fiquei envergonhado, e elle conhecendo o meu pejo, virou-se para a turba, e disse: Aonde está Linacro, que naõ vem dar as boas vindas ao seu compatriota? Logo appareceo o Grammatico Inglez, de quem recebi aquelles generosos cortejos, que de homem taõ douto devia esperar. Entaõ fez D. Maximo de Sousa certo signal, e fui levado em procissaõ para o palacio.