Logo que ahi entrei, espetei os olhos em hum velho venerando, o qual estava sentado em o segundo salaõ em huma cadeira toda cravejada de brilhantes carbunculos; em cujo espaldar se viam as armas do Rei Attalo, de quem havia sido Embaixador. Ajoelhei, e elle virou a cára para a banda. Disse-me entaõ Estevam Cavalleiro: Aqui naõ se gosta de lisonjas, faze o que vires fazer aos mais. André de Rezende, que estava ao pé, disse-me: Todos aqui estamos assentados: aquelle he verdade está com mais{14} distinçaõ, por ter sido o primeiro Mestre, que Roma teve, Crates Mallotes se chama.

Entaõ eu pedi licença para fallar: ao que todos os que estavam perto de mim, responderam, que naõ só pelos merecimentos de meu avô, mas pelos proprios, os quaes valiam seiscentas mil vezes mais que os alheios, podia eu dizer o que bem quizesse. Abaixei a cabeça pelo obsequio, e disse: Se bem me lembro, este homem foi Grego, e naõ sei, porque recebe aqui as honras de primeiro contra outros da Grecia muito mais antigos que elle? Assim he, disse Sanches, mas como os Romanos venceram os Gregos, e ficaram senhores do terceiro periodo das Letras, tambem sempre respeitaram o seu primeiro Mestre: e tendo o imperio Romano dado leis a todo o mundo, ficou este com os seus discipulos nesta Ilha ainda recebendo as honras do Magisterio: e nós todos respeitamos muito as suas cãs.

Quando elle assim fallava, vi huma{15} nuvem de Grammaticos Romanos, que o Barbadinho nomeava por seus proprios nomes, que me naõ eram novos pelos haver lido em Suetonio de Illustribus Grammaticis. Notei com tudo tres turmas differentes, a saber, a primeira dos Grammaticos antigos, isto he, desde o fim da segunda guerra Punica até o seculo X. da era vulgar: outra dos velhos, isto he, desde o seculo X. até o XVI. a ultima dos modernos, isto he, desde entaõ até hoje. Porém muitos dos modernos estavam misturados com os velhos; e disse-me Porretti, que era por terem seguido as mesmas opiniões. Tambem ouvi em outro salaõ hum grande susurro, e disse Cataldi, serem os Grammaticos antiquíssimos, de quem naõ havia memoria no mundo, e que por isso viviam solitarios.

Cuidei, disse eu, que a Grammatica naõ era taõ antiga: he mais (respondeu Carlos Tobalduzio) do que os pedantes pensam: mas sentemo-nos, que para isso já o Mestre fez signal. Logo que todos se assentaram, e eu ao{16} pé de Sanches, poz Crates Mallotes huns oculos no nariz, e avistando-me, diz: Tambem por cá, meu Inglez? Eu me admirava já de naõ apparecer por aqui algum marinheiro da Grã-Bretanha mas vamos adiante, que vos parece a pedantaria deste chamado seculo das luzes? Ha 23 annos, respondi, que sahi da minha Patria, e Portugal foi a primeira terra, que depois da minha conheci: E entaõ que viste por lá? Florecer as letras com muita vantagem, o commercio; vi manufacturas, taõ boas, ou melhores, que as do meu paiz.

Assim foi, disse Crates, mas para que saibais, quanto agora lá vaõ decahindo as letras, para que eu naõ falle em outras nações que finalmente estaõ prostradas na mais furiosa ignorancia, vos informará o respeitavel Diogo de Teive, e outros Portuguezes, e estrangeiros, os quaes comnosco vivem. Porque, naõ obstante as justas providencias, que para remedio deste mal, ha dado o melhor e o mais pio de todos os Monarcas{17} do orbe, necessariamente havia de fazer alguma opposiçaõ á piedade de seus desejos a furiosa torrente de desgraças, que ha onze annos, tem alagado de sangue, e de maldades a infeliz Europa. Portugal, talvez pela sanctidade de seu Augusto Soberano, tem padecido bem pouco; ahi ha mais sabios, melhores soldados, mais gente honrada em todos os estados, do que naçaõ alguma possue. Por isso, meu Inglez, applicai as nossas justas censuras, ainda com mais razaõ, a todos os póvos da terra; e confessai isto mesmo lá no mundo, para credito da nossa honra, e prova da nossa verdade.

Eu desempenharei, diz Despauterio, a tua commissaõ, nem outro melhor para isso acharás. Callai-vos, repondeu Mallotes, todos sabem que fostes hum gritador contra todos os Grammaticos de teu tempo, quando a tua Arte he hum cahos muito similhante á massa informe, que existia Ante mare & terras.... O Francez vaidoso ficou fazendo trejeitos;{18} mas por entaõ ficou callado.

Todos gostaram muito do sabonete do velho; porém Diogo de Teive com toda a civilidade principiou dizendo: Ainda que Despauterio tenha milhares de defeitos em a sua obra, naõ deixa todavia de ter algumas coisas interessantes, de cujo numero he a definiçaõ de Grammatica: Omnium scientiarum sons uberrimus. E certamente, se o dom da palavra he hum dos maiores que do Ceo recebeu a humana geraçaõ, e porque se differença dos brutos animaes, como poderiam sem este dom os homens viver em sociedade? He por esta via que elles huns aos outros communicam os seus desejos, e sentimentos, a fim das utilidades, e interesses da vida social. He logo preciso que o homem saiba fallar; pois senaõ souber, de que lhe valem todos os seus conhecimentos? E naõ será por conseguinte a primeira de todas as disciplinas aquella de fallar, e escrever sem erro?{19}

Quem o duvida? disse Vossio, por isso he que os Gregos, Mestres do genero humano inventaram a Grammatica. A isto tornou Crates Mallotes, abaixando a cabeça: Naõ ha duvida que de nós a receberam muitos póvos; mas já antes de nós os Hebreos a conheceram.

He verdade, continuou Teive, que os sabios de todos os tempos muito bem se persuadiram do interesse desta arte; e póde-se dizer que ao homem, o qual sem ella quizer ser letrado, acontecerá o mesmo, que ao cégo sem moço, nem bordaõ, correndo por montes, e rochedos.

Mas os homens deste tempo, diz Pedro Simaõ Abril, nenhum caso fazem della: todo o que era tido por honrado em o meu, mandava seus filhos ao Latim; e desta maneira ficavam pelo menos com alguma instrucçaõ de Grammatica geral.