Sim, disse o Barbadinho, naõ ha muitos annos, que os rapazes hiam leguas aprender Latim, hoje naõ faltam Mestres, sem terem a quem ensinem.{20} Por isso, disse Agostinho Saturni, ninguem vê senaõ casquilhos, mettidos a espertos, sem que ao menos saibam ler.
Naõ se estudando Grammatica, proseguio Teive, tambem fica abandonada a Logica, a Eloquencia, e os mais estudos, que allumiam o espirito do homem: e daqui vereis quanto vaõ decahindo as letras, sendo taõ poucos os que a ellas se applicam.
De França, disse Lopo Gallego, veio o exemplo desta pedantaria, deste desprezo das letras. Aqui se levantou o P. Manoel Alvares, todo inflammado, e disse: Depois que o grande Rei D. José reformou os Estudos, e reprovou a minha arte, ficou a Grammatica Latina bem facil de aprender; mas a pezar desta reforma vejo cada vez mais pedantes, e estadistas de café.
He verdade, disse Fr. Theotonio de Lisboa, que as intenções do nosso Rei foram todas as mais heroicas; Portugal no meio deste seculo poz-se{21} todo luminoso; e os sabios cresciam em tanto numero, quanto era o das mercês, e premios, que de taõ alto Senhor recebiam. Estas luzes porém vaõ-se diariamente apagando pelas borrascas tenebrosas, que ha dez annos pegaram, e a ignorancia corre appressadamente a pôr no cachaço dos humanos a sua canga de ferro.
Como póde ser, disse eu, que as letras tenham decahido tanto em Portugal? Ha 23 annos, que lá estive, e parecia-me ter sabios para ensinar todos os povos do mundo.
Ainda hoje, respondeo Martinho Crusio, tem em sua pequenez mais eruditos que naçaõ alguma; porém a mocidade vai perdida: e esta praga he geral, ainda naquelles povos, que se jactam de mais espertos.
E que vos parece, companheiros, disse Sevio Nicanor, a persuasaõ ridicula de certas cabeças allucinadas, que attribuem á sciencia as revoltas deste seculo? Á ignorancia,{22} respondeo Aurelio Opilio, he que deveram ser attribuidas.
Dizeis bem, continuou Teive, esse he hum sophisma non caussae pro caussa. Porque pela falta de sabios perdeu-se Athenas: o imperio Romano espirou em a noite da ignorancia: França nunca foi taõ florescente, como em o tempo de Luiz XIV.: Hespanha em o dos Reis Catholicos. Estas provas saõ de facto, e só por outras da mesma natureza podem ser contrastadas.
Joaõ Despauterio, que vio fazer a França aquelle elogio, poz-se todo tezo, e disse, que ella havia sido a mãi dos sabios; Crates Mallotes porém, que já o mandára callar, poz-se a dar cuadas, e parecia huma vibora. Vendo Jerardo Joaõ Vossio o velho assanhado, disse: Aqui naõ he lugar de enganos, bem sabeis que os Francezes nunca passaram de Contrabandistas das letras. Todos sabem que elles tem vertido o trabalho dos mais povos, e que muitos inventos{23} alheios os tem vendido por seus.
He isso taõ certo, diz o grande Joaõ de Barros, que até a invençaõ da maquina aerostatica fizeraõ sua, quando foi de hum clerigo Portuguez, que sendo entaõ tido por Magico padeceu seus detrimentos.