Bem sabeis, disse Fabio, que eu fui o primeiro Mestre público que em Roma ensinou, e nunca cessei de clamar contra a má educaçaõ, que os pais daõ aos filhos; mas os homens de hoje saõ infinitamente mais culpados.

Que Romano, disse Samuel do Prat, naõ entranhou com o seu exemplo em o coraçaõ dos filhos o amor da patria, e das letras?

Ora pois, continuou Fabio, os idiotas nunca em Roma figuraram, senaõ em os seculos da escuridade; por isso os pais procuravam pela sciencia a fortuna dos filhos, e a sua.

Mas em que pontos principalmente,{30} diz Elias Maior, peccam hoje os pais em a educaçaõ de seus filhos? Dois extremos viciosos, respondeu Quintiliano, saõ as causas primitivas. Huns os tratam com excessivo mimo, outros com excessivo rigor. Daqui nasce, serem estes clausurados em casa, como Freiras, e serem aquelles largados sem freio para onde querem. Todavia accresce a tudo o mau exemplo: porque, como a virtude, anda fogindo destas guerras, e destes desaforos modernos, se o menino naõ a encontra lá por fóra, muito menos a achará em casa, aonde nem se falla em Doutrina, nem em Religiaõ, nem em temor de Deos, nem amor da patria, do Soberano, das sciencias, &c. Ora vede agora que taes doutores seraõ os filhos de taõ bons pais? Por isto, disse Buchnéro, o mundo está cheio de paraltas, e estadistas, como nunca.

E que vos parecem, disse Barnabé de Busto, estas bandalhices da moda? estes çapatos de bico mais comprido, que corno de boi? Estes calções,{31} que custam mais a saccar das pernas, do que a cobra a largar a sua pelle? Estes dois relogios? Estes chapeos de zabumba? Por ventura os Romanos senhores do universo praticaram no meio do seu luxo, e das suas riquezas, similhantes extravagancias?

Naõ chameis, respondeo Fabio com muita brandura, naõ chameis a isso extravagancias, chamai-lhe falta de bóla. Os Romanos foram muito sabios: todas as ordens tinham seu modo de trajar; e o mesmo homem em as suas differentes idades usava de vestido accommodado a cada huma dellas.

Os nossos antigos Reis, disse André de Resende, foram inimigos declarados do luxo: e estavam taõ persuadidos serem estes os sentimentos de todos os seus vassallos honrados, que D. Affonso o Bravo deu hum grande golpe no luxo para adoçar a magoa publica, que nasceo das desavenças, que elle tivera com seu irmaõ: e o que foram os Portuguezes daquelle{32} tempo, prova-se com a batalha do Salado, cuja memoria, faz parecer, todas as que depois houveram, brincos de rapazes.

Mas ainda dado, replicou Barnabé de Busto, que entre os antigos, apparecesse alguma vez o luxo, esse lobo faminto, que devora a honra, a virtude, e o dinheiro, vio-se em alguma época taõ enfeitado de redicularias como hoje? Os çapatos de espeto, naõ mostram quanto he romba a cabeça de quem os traz? Os calções de talas fariam menos deshonestos os antigos Faunos, quando dançavam nús em os theatros? Os...

Basta, disse Manoel Alvares, o peor he o custo do feitio, e da peça, que dura tanto, como aquelle animalinho, que nasce pela manhã, e morre á noite. Eis-ahi a causa, diz Taberio, de huma enxurrada de caloteiros, e de meritrizes, que tudo varrem.

Naõ houve seculo, continuou Manoel Alvares, nem mais farto de viveres,{33} nem mais abundante de gente honrada que o meu; ensinei no pateo de Santo Antaõ, e nesse tempo o ornato dos estudantes naõ passava de huma sotaina, e capa de baeta, assim como todo o luxo dos Cidadaõs consistia em huma casaca de saragoça de abas entrouxadas, e canhões de barbas até aos joelhos.