He huma piedade, disse Antonio Félis, ouvir a muitos pais as causas futeis de naõ mandarem os filhos ao Latim. Naõ pertendemos, dizem elles, que sejam nem Frades, nem Clerigos: nem taõ pouco se necessita de Latim para ser bom Cidadaõ.
Naõ se necessita de Latim, disse o grande Diogo de Teive todo fóra do seu sério, naõ se necessita de Latim{38} para qualquer ser bom homem, mas necessita-se delle para naõ ser asno. Ainda que a lingua Latina naõ fosse a lingua dos sabios, bastava para ser estimada o ter muitas filhas na Europa, que herdaram muito cabedal da sua mãi, do qual nunca já mais saberá dar conta quem ignorar as riquezas della. Assim he que estaõ infinitos sujeitos em empregos publicos, ganhando salarios enormes, os quaes nem escrevem coisa direita, nem sabem atar duas palavras juntas, e o mais por modestia fique no silencio.
Tudo isso, disse Joaõ de Barros, he fructa deste tempo tenebroso. O mundo em suas mudanças tambem vai variando os seus registos, e por força alguma vez sahiraõ os desaffinados. Até agora tendes bem mostrado as doenças literarias; naõ he porém da nossa caridade deixalas sem algum remedio. Julgo pois, que se deve entregar o menino a hum Mestre erudito, para o ensinar bem a ler, e a amar a sua Religiaõ, e os seus deveres: depois disto{39} deve aprender a Grammatica da sua, lingua materna; porque, naõ embargante, que em a Latina se acham os principios geraes de todos os idiomas, naõ devem todavia ignorar-se os particulares daquelle que mais que nenhum ha de servir aos interesses, e ás utilidades da vida. Entaõ vá aprender Latim, e por fim Filosofia Racional. E sem estes subsidios escuza de avançar a outras sciencias; porque he melhor naõ saber, que saber mal as coisas.
O conhecimento da Grammatica da lingua materna, continuou Fabio, tem sido recommendado pelos sabios de todos os tempos: nós a ensinavamos em Roma juntamente com a Grega, e veio assim a fazer-se a nossa linguagem taõ bella, e taõ universal pelo mundo, que só entre póvos selvagens, se acharia, e com muita dificuldade, quem naõ entendesse alguma coisa do idioma Latino. O Imperador Carlos Magno julgou naõ ter ainda alcançado a immortal gloria com a multidaõ dos seus triunfos; por isso em a sua velhice{40} compoz para as suas gentes huma Grammatica Tudesca.
Por mais que clamei, disse Barros, já em o feliz Reinado de D. Joaõ III. por introduzir nas escolas a Grammatica Portugueza, nunca o pude conseguir; nem depois sobre isto foram observados os Decretos do sempre Augusto D. José I.
Amigos, proseguio Quintiliano, isso pertence aos Professores, e se os pais nisto tem alguma culpa, he só em entregarem seus filhos a Mestres pedantes. Elles os procurariam bons, se hoje houvesse a lei que desobrigava os filhos de soccorrer aos pais, que tendo posses, naõ os mandavam instruir nas letras. Em quanto esta lei durou foi a Grecia em tudo respeitavel, e se ainda agora revivesse em os póvos civilisados, naõ seria a substancia publica devorada por infinitos glutões, que tudo engolem, e que de ordinario saõ os menos fiéis á sua patria.
Hum homem erudito, e Christaõ, disse Duarte Nunes, vendo o ignorante,{41} e inhabil a cevar a gula com o comer ao seu merecimento devido, póde sim por alguns momentos queixar-se; he com tudo impossivel moral esquecer-se da gratidaõ dos beneficios; mas o idiota presumido cuida, que mais se lhe deve, e ingrato desdenha de quem o farta.
Tudo isso he verdade, disse Joaõ Rivio; mas reparei, que Barros naõ fallou em aprender Francez, quando alguns autores mandam que o seu estudo seja antes do Latim. Esse Portuguez, continuou Fabio, he mui douto, e naõ devia favorecer a pedantaria: quer justamente que logo que se saiba ler, se aprenda a Grammatica da lingua materna, e depois a Latina, por ser mãi da Franceza, da Portugueza, da Italiana, da Hespanhola, e de outras, que facilmente aprenderá quem souber a lingua dos sabios. E digo-vos que o Francez tem estragado bellissimos idiomas.
No tempo em que ensinei letras humanas em a Universidade de Coimbra, disse o honrado Teive, poucos,{42} ou ninguem estudava Francez. Porém he certo, que nunca Portugal teve nem mais sabios, nem melhor gente. Naõ possuia entaõ a nossa lingua nem outra formosura, nem outras riquezas, que as herdadas da sua respeitavel mãi: e hoje apparece de quando em quando com a sua capa de remendos, mais ou menos despresivel, segundo os retalhos, e os pontos do alfaiate, que a cozeu.
Mas tendo os Franceses, disse Mariángelo, vertido as obras dos outros, como fica notado, naõ será inutil saber esta lingua. Sempre saõ versões, respondeo Julio Cesar Escaligero, melhor he ler os originaes. Naõ sou contra este idioma; confesso que nelle estaõ escriptos bons, e máos livros. Com tudo estou pelo sentimento commum dos sabios, que o seu estudo naõ deve ser o primeiro; e até julgo naõ ser presentemente grande perda ignoralo, em quanto que naõ chegam das duas Anticeras navios, e mais navios carregados de helleboro para curar a funesta{43} loucura, que se apoderou das cabeças daquelle povo infeliz.