João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar, até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte amaldiçoasse o filho mal procedido.

Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte, deante de uma mentira, ou duas que fossem.

Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.

Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder, começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu mal.

A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico; mas só e triste.

Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.

Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.

Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.

Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam, e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor, ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes perguntar noticias do trabalho.

E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem desafiára o cão!