Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.

Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade, adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.

E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.

N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a hora de regressar.

Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.

Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso dos trovões.

Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga, lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.

—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não se inquietava muito com um mau encontro.

Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.

Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.