Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos, ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que parecia mais animoso.
—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que lhe receitou o mestre Eusebio.
(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e facultativo á falta d’elles).
Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um tom mais seguro, como para lhe incutir valor.
—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês que tem cara de boa pessoa!
O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta amabilidade era pois um argumento ad benevolentiam, aprendido quasi intuitivamente, na rethorica saloia.
—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!
Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.
—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.