Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação, attribuiu-a a causa bem differente.
—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu trafego.
N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.
Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de pernas e braços.
—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?
—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe se não puchar abaixo com força. E será assim?
—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.
—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.
—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...
—Do Joaquim, fallei, sim senhor.