—Então esse Joaquim?

—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do estado a que chegámos...

—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?

—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma afflicção; mas de hoje em diante...

—Que diz?...

—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão, lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois, apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso ir pedil o fóra.

N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.

Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.

Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus erros e nas suas culpas.

A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára, e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.