Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos, descanço, que nos deixa mais cançado ainda.

Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:

—Como te sentes, Raymundo?...

—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?

—Quem?

—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.

—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao teu estado.

—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para que não visse a desgraça dos pobres.

—Mas teu irmão!

—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada. O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a procuração.