—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo, não ha para ti ninguem mau n’este mundo.

—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.

—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este estado com as suas demandas.

—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou, porque não havemos nós de perdoar...

—Obrigado, irmão!

Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo, que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho, conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.

A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras, que cortaram o dialogo.

Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:

—Joaquim!