Por vezes assisti a estas leituras, por vezes ouvi as suas explicações, e se mais tarde as commentava tirando desagradaveis conclusões a respeito da illustração e intelligencia do velho, não deixava sempre de me sentir commovido, quando fazia parte d’aquella piedosa reunião.

Sigam-me tambem os meus leitores, que, conforme sei, e segundo me recordo, vou procurar descrever-lhes, como se apresentava a scena, na ultima vez em que, pouco antes de regressar a Lisboa, assisti á prédica do ingenuo parocho.

Estamos no adro da egreja: a parochia é de trezentas almas quando muito. O dia vae declinando e está proximo o sol posto.

A egreja não tem o aspecto sumptuoso d’um grande templo; nem a magestade altiva de uma cathedral do seculo XIII.

É de hontem apenas.

Uma frontaria sem ornatos, uma torre proxima sem enfeites.

É simples e pobre como o presepio do Redemptor.

Sobre o adro espaçoso e plano um velho platano á esquerda braceja largos ramos envolvendo na sua sombra uma cruz musgosa, que se levanta defronte da porta da egreja e que deixa perceber em profundas cicatrizes, rudes combates com o tempo ou com a impiedade dos homens; perto do platano um pequeno regato corre por baixo do parapeito do adro e depois de passar sob uma ponte de pedra que dá serventia á estrada, vae espraiar-se ao longe n’uma pequena bahia, onde as lavadeiras do logar vem bater a roupa ao pé dos choupos e olmeiros, que se debruçam para a corrente.

De um dos lados sóbe a encosta de um pequeno outeiro atapetado de vinhas e oliveiras, corôado de moinhos que desprendem as velas a favor da viração da tarde; do outro a vista divaga por meio dos pomares e terras de vinha, no meio das quaes alvejam as casinhas do logar, e se recortam no puro azul dos céos as oliveiras verdenegras.

Os rumores do campo começam a esmorecer com o largar do trabalho indicando a proximidade da noite.