A tarde tem corrido serena e a natureza sorri na flôr do prado, como na arvore do bosque.

Sentado n’um banco de pedra mal affeiçoado pela mão de rude artista está o parocho, junto a si os evangelhos depostos e ainda abertos: as mãos pousadas sobre os joelhos, a cabeça um pouco inclinada pelos annos; o corpo alquebrado pelos trabalhos. A seus pés, sentadas no chão, em rancho, as creancinhas da terra, em roda as raparigas e as mulheres; mais ao largo, os homens fechando o circulo e encostados aos varapaus.

Um pouco mais affastado do grupo, sentado n’um dos poiaes do adro, e scismando, ao que parece, está o tio Joaquim, commentador e companheiro das homilias da tarde. De quando em quando, em pontos mais subidos da exposição do pastor levanta a cabeça, fita o narrador com gesto expressivo, e com os olhos illuminados por aquelles doces clarões da sympathia e da attenção, segue o fio do discurso para descahir breve nas habituaes meditações.

O padre tem acabado a leitura de um dos sagrados capitulos, e d’accordo com a intelligencia dos ouvintes explica-lhes o texto procurando comparações no campo, na lavoura, nos trabalhos que melhor conhecem, nos instrumentos com que mais de perto lidam.

Todos o escutam em religioso silencio e a palavra sagrada recebe maior uncção na bocca do venerando velho.

Tem apenas acabado de fallar quando no sino proximo começam a bater as melancholicas Avé-Marias. O som vae chorando, como uma saudade do dia que finda, pelas quebradas do monte e pelos arvoredos dos bosques, para voltar amortecido e triste, como recordação de felicidade.

É um momento solemne.

O padre ergue-se, a boa gente do campo ajoelha a seus pés. Por momentos as orações murmuram como o esvaecer do som no bronze sagrado e a oração ergue-se como um côro de harmonias dos labios dos fieis, do murmurio do regato, do ciciar da aragem, do bulir do arvoredo, do tinir dos chocalhos, dos balidos do rebanho que ao longe recolhe da pastagem para o abrigo do curral.

Depois o padre abençôa seus filhos com as mãos tremulas estendidas e a fronte encanecida illuminada pelos reflexos derradeiros do sol já escondido: despedindo-se do parocho, retiram pouco a pouco os aldeões guiados, como os israelitas no deserto, pela espiral de fumo, que se ennovella sobre os tectos de suas casas, o ruido vae pouco a pouco diminuindo, recolhe o rebanho ao curral, os pastores deixam de cantar, a voz dos ultimos camponezes perde-se na volta da estrada. Mas o rio ainda murmura, o vento ainda suspira na rama das arvores, e o padre sósinho, com os olhos fitos na pallida lua, que começa a assomar no céu, não limpa uma lagrima de saudade e de esperança, que lhe escorrega pela face cavada pelos annos, envelhecida pelas maguas. Saudade da terra e dos homens, que vae deixar, esperança na vida eterna, que entrevê tranquillo, crente na misericordia do Senhor, confiado na sua infinita bondade.

Hoje a boa gente do campo volta ao adro a procurar o padre, o platano e a cruz. Tudo tem desapparecido apoz o homem a planta, apoz a planta a pedra, tudo volveu ao nada d’onde veiu. Sobre o cadaver do velho caiu a pedra do cruzeiro, um arrebento do platano deu sombra á sepultura; mas a natureza proseguiu guiada pela civilisação e pelo progresso desfolhando uma saudade sobre a campa e colhendo do novo arbusto a planta sempre viçosa da arvore da liberdade.