A poesia do passado tem-se perdido. Mas o homem, que ficou meditando sobre aquella lapide, disperta das suas meditações ao grito da locomotiva do caminho de ferro, ao retenir da campainha do telegrapho electrico, ao resfolegar das caldeiras da fabrica proxima, ao estrondo magestoso das novas eras, que nas azas do pensamento correm a cumprir a sua missão.
N’aquella tarde fôra a historia de José o texto escolhido; e o velho descrevendo o quanto padecera o patriarcha hebreu por amor dos seus irmãos, e seus compatriotas, fallára tão de leve no sacrificio, prestado á honestidade; como, perdoem-nos a comparação, a raposa discorrera a proposito das uvas que não eram para seu dente.
Muitas virtudes encontrava elle no casto José, mas a de resistir com tanto denodo á mulher de Putiphar, não foi das que mais encareceu. Nem por isso lhe parecia grande façanha. Para o bom do velho nada havia mais natural.
Não assim para grande parte de seus ouvintes. Aquelle rasgo foi o que maior impressão deixou na intelligencia sensual de muitos. No serão d’essa noite não faltaram commentarios e choveram ditos, alguns dos quaes, posto que bastante grosseiros na fórma, não deixavam de ter bom sal, e grande finura no alcance.
Terminada por fim a discussão foi votado por maioria, que tal caso era impossivel; ou pelo menos, se o não era, fôra um grande disparate do patriarcha hebreu.
Protestou o tio Joaquim contra a decisão da assembléa, e para fundamentar o seu protesto pediu a palavra, que lhe foi concedida com o maior prazer.
—Todos, quantos aqui estão, conhecem ou tem ouvido nomear o Luiz Tiburcio, que traz de renda ao Morgado dos Cachorros o Olival grande do Brejo, no alto da estrada da Carrejosa. É um homem de bem e lavrador abastado; tem hoje um bom par de vintens e uma das melhores lavouras dos sitios. Pois vae vinte annos não tinha onde cair morto, nem esperanças de mudar de sorte. Um caso bem parecido com o que hoje ouviram ao sr. padre prior foi o começo da sua fortuna.
Luiz Tiburcio é do Minho. Veiu por ahi abaixo procurar vida e trabalho, quando por morte do pae e da mãe, ficou sósinho na terra, sem ter quem lhe valesse, nem casa que lhe abrisse a porta. Era pelo tempo da guerra, andava tambem a molestia, e cada um cuidava principalmente de si, ou dos seus, e não tinha vagar para saber do mal dos outros.
Curtiu fomes e frios pelo caminho, não poucas vezes estendeu a mão á caridade, e não poucos dias pediu esmola a chorar, perdido de fraqueza, e sem esperanças de ter um bocado de pão. Ninguem cuidava em dar trabalho e era tal a desconfiança, que ninguem queria tomar para casa um rapaz, coberto de farrapos e com cara de padecente.
Tinha uns quinze annos, pouco mais, e já começava a saber o que era mundo. Entrava na vida pela porta da desgraça e principiava a amargar a existencia sem lhe ter provado ainda as doçuras.