O rapaz estava enregellado e hirto, os beiços arroxados, os olhos mettidos n’umas covas negras, as mãos inteirissadas, o coração quasi sem bater.
Dir-se-ia morto.
Ao passo, porém, que ia aquecendo e que o esfregavam com pannos quentes e espirito de vinho tornava pouco a pouco a si: e depois de um caldo bem forte e bastante substancial parecia outro.
O sr. José Matheus indagou-lhe da vida e soube que a fome e o desamparo tinham sido a causa d’aquella doença. Compadeceu-se por vêl-o orphão tão moço e sósinho no mundo: era casado havia muito tempo, e não tivera filhos nunca, engraçou com a cara do rapaz, que era de boa feição, e adoptou-o para si.
Desde esse dia começou para o Luiz, a quem dentro em pouco já todos tratavam por sr. Luiz; e a quem o sr. José Matheus chamava—o meu Luizinho—uma vida de principe.
Não lhe faltava nada, aprendia, estudava, trabalhava e desenvolvia-se de dia para dia.
Em poucos tempos fez-se uma flôr. Parecia que medrava a olhos vistos e que cada vez ganhava maiores perfeições.
Perfeito no corpo, e mais perfeito talvez na alma, não havia para elle sol nem lua que valessem o sr. Matheus, nem palavras ou acções que lhe parecessem demais para lhe agradecer o bem que lhe devia. Luiz tinha coração de pomba.
Mas o demonio, que sempre as arma, e que parecia ter tomado o rapaz á sua conta, encarregou-se de entornar o caldo, e de deitar por terra aquellas felicidades todas.
A esposa do sr. José Matheus, apezar dos seus quarenta puchados, era ainda mulher de primor.