—Faço, faço, basta olhar para a tua cara e para o teu fato. Mas não se trata só de dár á lingua. Que tal de barriga, nem por isso vem muito quente não é verdade?
O silencio de Thomaz suppriu bem uma eloquente resposta. O tio Joaquim proseguiu:
—Para grandes banquetes não haverá, mas para uma assorda ainda chega o pão; fazem-se umas migas de bacalhau, deita-se-lhe um tomate e uma cebolla, e verás depois se, comida com boa vontade, não vale o melhor petisco do mundo.
—Vem quebrar-me o jejum.
—Que dizes, homem?
—Que salvo os meus peccados, ainda podia commungar, porque até a esta hora não entrou hoje comer na minha bocca.
—Pobre Thomaz!
E sem perder mais tempo em conversações, o tio Joaquim principiou a temperar as migas.
Entretanto tive eu tempo para examinar bem á minha vontade o Thomaz da tia Annica.
Teria uns trinta annos quando muito, o que só com muita difficuldade se percebia pela viveza do olhar. No resto da physionomia e no quebrado do corpo liam-se sessenta puchados. Não se podia dizer qual fôra a côr do rosto. Os sóes, os trabalhos e as febres, tinham-lhe retinto a cara d’um castanho esverdeado, que mais simulava medalha antiga que parecer de gente.