—Porque nem lês no céo, nem aprendes com as aves, nem escutas as plantas. Como has de ser infeliz. Tudo pois, que mais significação tem, nada quer dizer para ti. Mas descança, minha Agueda, quando casares comigo, has de saber o que eu sei.
—E tu sabes?
Thomaz fez-lhe signal para que se callasse por um momento, e pareceu cair em extatica contemplação com os olhos fitos no céo.
Seria passado um quarto de hora, quando pareceu voltar a si, dirigiu-se a Agueda, e disse-lhe:
—Ouve-me agora. Quando meus paes quizeram que eu estudasse, quando tentaram que eu aprendesse ou trabalhasse, senti em mim uma voz que me dizia: não trabalhes, não é preciso, has de ser rico, muito rico, espera, confia e descança.
—E tu?
—Sempre que me approximava do trabalho sempre esta voz me fallava; se eu insistia tornava se mais aspera, reprehendia-me, accusava-me de não ter fé. Por fim... não estava mais na minha mão, fugi ao trabalho, não pude resistir ás palavras, que ouvia a todo o momento.
—Pobre Thomaz!
—Quando comecei a abandonar a casa, para vir deitar-me para debaixo d’esta arvore, parecia-me que as flôres e as plantas se debruçavam para mim e diziam umas ás outras: é mais um irmão que chega, bemvindo seja entre nós.
E eu sorria-me para as hervinhas e para as arvores e a umas e outras dizia: Eis me, queridas irmãs, que saudades eu tinha vossas, como me batia o coração com pena! Eis-me, oh irmãs, e não vos deixarei mais.