—Talvez me recordasse.
—Has de recordar-te, sou eu que t’o peço, mas continua.
—Embrenhado n’estes pensamentos, um dia que alargava a vista pelos campos, e que pretendia mergulhar os olhares no céo, lá bem longe, n’aquelle affastado ponto, em que tu divisaste ha pouco uma nuvemzinha, vi avultar uma figura branca, tão transparente, tão formosa porém, ai tão formosa! que arrebatava olhar para ella... Mas porque estás tão triste, borbulham-te as lagrimas nos olhos!
—Lembro-me do que me disseste, Thomaz, que me achaste feia, e tenho pena de o ser.
—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.
Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.
—Mas dizias, que te fallára!
—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe, que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto constante a mostrar-me a immensidão.
—E respondeu-te?
—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em madrugadas de maio.