—E disse-te...
—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»
—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!
—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!
—As hervas?
—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras, bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?
—E pensaste então em amar?
—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde. Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.
—Seguiste o conselho das aves?
—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.