—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um ninho, nem n’uma leira dos campos.

—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos passarinhos.

Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me dizia: estamos longe, muito longe!

E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e animavam-me tambem.

Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas em que devias chegar, mais me palpitava o coração.

—Querer-me-ias, por ventura?

—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado, se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro. Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor do ceu, a ti com o amor da terra.

Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.

—Porque suspiras?

—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.