—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada mais.

—Ora!

—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra, como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo. Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe as fórmas...

—Pois isso póde ser!

—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem escondida do mundo.

A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas, a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.

Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que renovou o dialogo.

—Pois sempre queres partir?

—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados, quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te quanto passei por amôr de ti.

Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse, havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia. Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.