Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura, que se lhe representava em suas allucinações.
Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil, deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma que trouxera sempre. Acceitou.
Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças, nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.
Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das correntes e das tempestades.
Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a vêr a sua Agueda.
—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração, ainda está á espera d’elle?
—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.
—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?
—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.
—O tio Joaquim não lhe disse nada?