Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.
Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava horas sem dar palavra.
Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas indiscretas, ou observações futeis.
Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.
O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros, trasgos, almas penadas e cemiterios.
Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.
Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.
—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se da polpa e não queira saber do caroço.
E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.
Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia escolhiamos por ser mais recatado e só.