Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado, eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque receava experimentar e sentir tambem.
Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos podiam inquietar os conhecidos.
A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que, mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.
Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só, parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento. Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia de navios e de animação.
Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a meditação.
Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos, qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.
A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua, offereciam um bom poiso para descançar.
Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós, o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a perder-se no espaço.
Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu, aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha imaginação apaixonada.