Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e onde deve ir um dia.
Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era feliz soffrendo assim.
O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.
Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos, o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa da malta e do canto da lareira.
Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado, que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.
—Chora, tio Joaquim?...
—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.
—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!
—Muito! Mas não tem duvida.